National Treasure: Haitian Art History and its Hidden Revolutionary Past / Tesouro Nacional: A História de Arte no Haiti e seu revolucionário passado secreto


Original text in English written by Art Historian and friend Aimée Reed: http://dailyserving.com/2010/03/national-treasure-haitian-art-history-and-its-hidden-revolutionary-past/

Versão original em inglês escrita pela Historiadora de Arte e amiga Aimée Reed: http://dailyserving.com/2010/03/national-treasure-haitian-art-history-and-its-hidden-revolutionary-past/

Edouard Duval-Carrié, Le monde actuel, ou Erzulie interceptée (O mundo atual, ou Ezili Interceptada), 1996, Bass Museum of Art

Com as noticias dos recentes acontecimentos no Haiti, veio subitamente a superficie a história complicada da relação daquele país com os Estados Unidos. Um grupo religioso Batista norte-americano tentou levar crianças haitianas para fora do Haiti sem a documentação necessária, causando uma tempestade midiática internacional, e um recente artigo do jornalista Seumas Milne no jornal Guardian de Inglaterra questionou a motivação do exército norte-americano em “[comandar] o aeroporto de Port-au-Prince … [enviando] de volta vôos que traziam equipamento médico e de emergência … para dar prioridade à chegada de tropas.” Uma negligência latente que parece estar-se infiltrando também nas discussões sobre a história do país. Após o terremoto, perante a devastação e o número de vidas perdidas, fica difícil argumentar a importância de salvaguardar o patrimonio artístico. E no entanto, a recente incursão neste tópico por duas publicações norte-americanas, juntamente com os acontecimentos acima mencionados, levou-me a acreditar que a necessidade para esta discussão chegou mais cedo do que tarde demais. É a aparente falta de familiaridade com a cultura haitiana, neste caso a sua arte, que é problemática e resulta numa ainda maior marginalização dos artistas e da história do Haiti. Usando a sua história de arte como janela para uma identidade nacional, espera-se que o Haiti se venha a afirmar muito para além da sua situação enquanto um dos países mais pobres do mundo.

A 24 de Janeiro o Los Angeles Times relatou a destruição do Centre d’Art, um centro de arte histórico fundado em Port-au-Prince em 1944, que ajudou a lançar artistas haitianos na cena artística internacional. Na época, era tendência no mundo da arte encontrar o próximo grande artista ‘primitivo’, uma influência dos movimentos Dadaístas e Surrealistas que visavam recuperar uma inocência sentida como perdida com a industrialização européia. Artistas haitianos que estivessem dispostos a ser olhados a partir desta hegemonia européia/americana, poderiam encontrar um lugar no mercado de arte internacional.

Estragos no Centre d'Art (Brian Vander Brug, Los Angeles Times, 23 de janeiro, 2009)

No entanto, existia no Haiti uma longa tradição acadêmica crioula, base de um estilo mais formal e figurativo na pintura haitiana. Philomé Obin (1892-1986) já pintava há 30 anos quando o centro abriu e é ainda considerado um dos mais influentes artistas do Haiti. O seu trabalho é testemunho de uma escola de pintura histórica, de comemoração de conhecidos eventos na história revolucionária do Haiti com freqüentes referências a heróis nacionais como Toussaint L’Ouverture e Charlemagne Péralte. Obin destacou-se nesta escola de arte nacionalista do Haiti e a sua influência pode ser vista hoje no trabalho de artistas internacionalmente conhecidos como Edouard Duval-Carrié. Continuar a chamar estes artistas e seus trabalhos de ‘primitivos’ hoje em dia, sem explicar o contexto em que tal termo surgiu como fez a jornalista Tracy Wilkinson do Los Angeles Times, é no mínimo desleixado.

Philomé Obin 1892 - 1986, Crucifixion de Charlemagne Péralte pour la Liberté, Crucificação de Charlemagne Péralte pela liberdade, 1948, Coleção do Milwaukee Art Museum

A segunda problemática do artigo no Los Angeles Times, que também se põe na capa da edição de 25 de Janeiro do New Yorker, é a continuação do uso da palavra ‘voodoo’ em referência à religião haitiana vodou (também conhecida por vaudou). A capa mostra a pintura Ressurreição dos mortos do artista contemporâneo Frantz Zephirin (sobrinho-neto de Obin). Na pintura estão representadas figuras dos guias do vodou (‘deuses’), guardando a passagem entre a vida e a morte. As duas publicações usam o termo ‘voodoo’, uma construção ocidental carregada de preconceito racial, sem qualquer aprofundamento do seu importante contributo para a história de arte no Haiti ou para a formação da identidade nacional. Vodou combina as religiões da África ocidental e do catolicismo romano, abrangendo os deuses, ou Iwas, que quando adorados ajudam os praticantes a se aproximar do deus supremo Bondeyé. No artigo Vodou, Nacionalismo e Performance: encenando folclore no Haiti de meados do século XX, Kate Ramsey discute o papel da religião na formação do movimento indigenista, um ‘comício conceptual’ da revolução contra a ocupação norte-americana de 1915, nascido das fortes raízes de identidade cultural e étnica. A religião foi criminalizada e aqueles que participavam em cerimônias eram perseguidos, obrigando o vodou a entrar na clandestinidade e a se tornar num locale de resistência para os Haitianos. Nessa altura, vodou foi ‘exoticizado’ por artistas americanos/europeus que procuravam uma conexão com o ‘outro’, como por exemplo a coreografa Katherine Dunham e a diretora Maya Deren, mais conhecida pelo seu Divino Cavaleiro: os deuses vivos do Haiti, um filme documentando rituais de vodou e seus praticantes.

Frantz Zephirin, A Ressurreição dos mortos (2007), capa da edição de 25 de janeiro, 2010 da revista "New Yorker"

Quando o vodou foi legalizado em 1946, o Centre d’Art encorajou seus artistas a incorporarem figurações religiosas na produção artística, uma vez que isso era ‘entendido’ como puro, autentico (ou seja ‘primitivo’). Artistas haitianos que conscientemente decidiram deixar-se rotular de ‘o outro’, puderam alcançar sucesso no mercado internacional. Um bom exemplo é o artista Hector Hyppolite (1894-1948), que tendo aceitado o papel nele projetado, exibiu em Paris e Nova Iorque com frequência podendo contar com o mecenato de figuras importantes como André Breton (o pai do movimento surrealista) e o autor americano Truman Capote. Numa palestra em 2000, intitulada: Terror voodoo: (des)representações de voodoo e as ansiedades culturais do ocidente e apresentada na October Gallery de Londres, John Cussans discutia a ‘construção  do voodoo’ em 4 vertentes: a boneca de voodoo; o zombie; o bruxo de voodoo; e a possessão pelo voodoo. Através de sucessivas representações, defende Cussans, vodou tem sido continuamente objetificado e suprimido pela cultura euro-americana e a constante necessidade desta ‘autenticar’ etnograficamente (ou definir através de um olhar ocidental), o que não entende. Conclui Cussans: “É esta tendência de pôr voodoo no vodou que tem de ser revertida se queremos resistir uma continuada compaixão pela supressão do vodou, posta em ação por um mal-orientado desejo de autenticidade.” Que é o mesmo que dizer que qualquer conceito de voodoo tem de ser abandonado no que toca à religião haitiana; ou não estaremos fazendo mais do que participar nas suas sucessivas (des)representações. É este o problema com as publicações norte-americanas. A (des)representação tornou-se tão enraizada na psique americana, que os jornalistas nem sequer pensaram em pesquisar sobre a religião.

Hector Hyppolite (1894-1948), La dauration l'amour (A Adoração do Amor), 1946-48, Coleção do Milwaukee Art Museum

O Centre d’Art e as galerias locais relatam a perda de muitas obras de arte guardadas em seus espaços coletivos, bem como de um numero de artistas por elas representados. A recente tragédia transformou o Haiti no centro das atenções e tem sido tremenda a forma como gente de todo o mundo tem respondido ao pedido de ajuda daquele país. E no entanto precisamos de coletivamente respirar bem fundo para entender que pisamos um terreno complexo. A falta de referencias dos contextos históricos, artísticos e políticos de ambas publicações mencionadas, ilumina áreas estimulantes que aparecem sempre que um poder ocidental oferece ajuda ao Haiti. Não poderemos nos suster enquanto comunidade global se continuarmos a repetir os mesmos erros históricos de um passado colonial. À medida que prosseguimos, precisamos nos conscientizar da história toda, sem prender haitianos e sua cultura num espaço marginalizado, e pondo de lado nossas noções preconceituosas de forma a realmente ajudar o Haiti. Senão, garanto, teremos outra revolução nas nossas mãos.

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