Sensory Lisbon / Lisboa Sensorial


If an epidemic of Blindness really hit us all, how would we adapt? How would we ‘see’ our cities, the spaces we occupy? How would they feel to our other senses? Would we smell the world around us more intensely? Would its sounds became more acute? Would we touch more eagerly what surrounds us, who surrounds us, ourselves? Would our depths, our human natures, come to the surface in full-force, exposing the fear, the anger, the violence, but also the kindness, the compassion, the solidarity that we are capable of, like Saramago described and Meirelles so poetically translated to the visual realm? Reading Blindness provides the visual experience that we create in our minds. Watching it, is an entirely different thing. Just like reading about a city and then actually visit it. But what if we still couldn’t see it? 

In Lisbon, the Association for the Blind decided it was time that those who can see experienced the city through voluntary blindness. I first heard of this project a couple of years ago through my friend Nuno who participated in a tour to Alfama, Lisbon’s historical neighbourhood, a beautiful arquitectonic legacy from the muslim communities who over 900 years ago inhabited the city. White walls, clothes hanging from windows, the smell of traditional cooking, narrow streets puctuated by small squares, Alfama is the soul of Lisbon, a mandatory place for tourists and all those in love with history and beauty. And now also, for the blindfolded interested in experiencing places beyond their visual abilities, through their senses of smell, taste, touch and hearing.

The tours, which take place on the last saturday of every month, are led by Carlos, a member of the Portuguese Association for the Blind and the Amblyope, himself blind, and by a representative from the alternative tour provider Lisbon Walkers, in partnership with Cabracega, a creative studio from where Hugo Tornelo and my new found portuguese friend Pedro Alegria launch various projects commited to break the boundaries between life and art and ‘transforming observants into participants’. Sensory Lisbon is occasionally extended to other neighbourhoods and urban centers, and it is now gaining attention from tourist associations and other cities. In my digestion of this extraordinary initiative I wonder, why is it that such an idea is not yet implemented in communities and schools around the world? Do we need a blindness epidemic a la Saramago to value our vision? Or would cultivating appreciation for our blind brothers and sisters, and what they can teach us about our other senses be enough?

Se uma epidemia de cegueira nos atingisse como nos adaptaríamos? Como ‘veríamos’ nossas cidades, os espaços que ocupamos? Como os sentiriam nossos sentidos? Quão intenso seria o cheiro do mundo à nossa volta e quanto aguda sua sonoridade? Tocaríamos mais avidamente tudo à nossa volta, os outros, nós próprios? Viriam com toda a força à superfície as nossas profundezas, as nossas naturezas humanas, expondo o medo, a raiva, a violência, mas também a gentileza, a compaixão, a solidariedade de que somos capazes, como Saramago descreveu e Meirelles tão poeticamente traduziu para o reino visual? Ler Ensaio sobre a Cegueira proporciona a experiência visual que criamos no nosso imaginário. Já vê-lo é algo inteiramente diferente. Tal como ler sobre uma cidade e depois visitá-la. Mas e se mesmo assim não a pudéssemos ver?

 Em Lisboa a associação portuguesa de cegos decidiu que estava na altura que aqueles que podem ver, experimentassem a cidade através de uma cegueira voluntária. Foi o meu querido amigo Nuno quem primeiro me falou deste projeto após participar numa visita a Alfama, um bairro histórico de Lisboa, e um belíssimo legado arquitetônico das comunidades muçulmanas que há mais de 900 anos habitaram a cidade. Paredes brancas, roupas penduradas nas janelas,  cheiro de comida tradicional, ruas estreitíssimas pontuadas por pequenas praças – Alfama é a alma de Lisboa, um lugar obrigatório para turistas e todos o apaixonados da história e da beleza. E agora também para os olhos vendados de quem se interessar por experimentar lugares para além das faculdades visuais, através dos sentidos do olfato, sabor, toque e audição.

As visitas, que têm lugar no ultimo sábado de cada mês, são conduzidas por Carlos, membro da ACAPO – Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal – ele próprio invisual, e por um representante do provedor alternativo de caminhadas turísticas Lisbon Walkers em parceria com Cabracega, um estúdio criativo de onde Hugo Tornelo e o meu mais recente amigo português Pedro Alegria, lançam variados projetos empenhados em quebrar as fronteiras entre vida e arte ‘transformando assim os observadores em participantes’. Lisboa Sensorial é ocasionalmente realizada em outros bairros e centros urbanos, e chamou a atenção de associações turísticas e outras cidades pelo mundo fora. Na minha digestão desta extraordinária iniciativa me pergunto porque esta idéia não está já implementada em comunidades e escolas pelo mundo fora? Precisamos de uma epidemia de cegueira a la Saramago para valorizar nossa capacidade de visão? Ou chega cultivarmos uma valorização por nossos irmãos e irmãs cegos, e o que eles nos podem ensinar sobre todos os nossos outros sentidos?

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