The Jungle, or the Poisoned Arrow Manifesto / A Selva, ou o Manifesto da Seta Envenenada


When in 1943, Cuban artist Wifredo Lam painted The Jungle, he was attempting to recapture the essence of the forest as a magic entity. Lam had recently arrived from Europe where for the previous 20 years, he had hanged out with the likes of cubists and surrealists in the exciting ambience of the Parisien art world of the time. Son of a chinese immigrant and a mulatta, and godson of a black Santeria priestess, Wifredo Lam would, upon his return home, review his inheritance, observing  popular Afro-Cuban culture and customs in order to translate them into the visual language of modernist art.

Lam had absorbed the desillusionment with the norm imposed by a western worldview, that from its sense of superiority, its industrialized practices, its exploitation of the colonized world, its senseless racist wars, prompted writers and artists from all over the world to review the ethics of ‘civilization’. They turned therefore to ‘primitivism’ – the dichotomy of urban bourgeois life –  and began looking at non-western art as a source of inspiration for a new modernist expression. If Picasso painted Demoiselles the Avignon in the manner that he did, he was engaging with African mask art, placing a western view of the primitive, the outcast, in the faces of french prostitutes, themselves outcasts in the false morality of European society. Non-European artists and writers, such as Lam, Tarsila do Amaral, Aimée Cesaire and Diego Rivera, who lived the Paris scene of the early twentieth century, returned to their countries to look for the ‘primitive’ at home, in the black and the indigenous cultures that could inspire a national cultural modernity. Oswald de Andrade’s Anthropophagite Manifesto was written in 1928, eight years after Francis Picabia’s Cannibal Manifesto, and in fact artists and writers of the period seemed to feed on each other hungrily, looking for inspiration, new ideas, new expressions that broke with the old norm. And so The Jungle became Wifredo Lam’s incredible digestion of these processes of visual and cultural revisionism. The composition is filled with vegetation, human bodies, symbols of Afro-Cuban spiritualities, blended together, disappearing in the mist of it all, as if ‘primitive’ cultures and their western perceived ‘natural habitats’ were one and the same. As if humans and nature were all connected. And in fact we are.

Beings of the vegetation, Pablo Amaringo, http://www.pabloamaringo.com

Recently I re-listened a 4 year old interview with english author Graham Hancock who wrote Supernatural, an anthropological work, using the Amazon as field research, where  he dwells on shamanic practices, ayahuasca visions and the world of spirit. Hancock is a pessimist regarding the future of humanity. The lungs of the earth are being cut down to make way for soy bean farms that produce cattle feed so that the obese ‘first world’ can eat hamburgers. Farms that will have a life duration of about 15 years and will leave the soil sterile for generations to come. He explains that it is the constant falling of leaves that maintains the rainforest soil fertile. Without trees the rainforest is doomed to become a desolation desert. Hancock claims that the ‘materialist ethic’ of western culture has cut our human connection with the world of spirits and that is why we can’t hear the jungle crying out in pain. And he defends the people of the Amazon who are cutting those trees because of economic need. A need that six months of expenditure in the Iraq war could cover forever, if only politicians were willing to replace wasting money on destruction to wisely using it on preservation.

It was this image of a living jungle, a gigantic entity crying out stop, that brought back to my mind Wifredo Lam’s painting. The image reflects for me that interconnection between nature, humanity and culture. Today, as I write these words, the cry of the forest is being launched by the indigenous voices protesting against the construction of a hydro-electric dam by the Xingu river – a protest that has only made it to mainstream news because Avatar star director James Cameron joined those voices and visited Brazil to show his support. The case is only one among the many struggles that indigenous peoples all over the world have to fight against a  westernized globalization that continues to treat our home planet as a mere resource for quick financial gain by goverments and multinational corporations.

I can’t help thinking that today, as in Lam’s time, we are still living with the same old structures settled on that same western worldview who merely learnt how to pretend to listen to the outcasts, so that it can validate its supposed democratic institutions. The reality is that polititians, CEOs and the bourgeoisie, don’t give a rat’s ass about the indigenous, who they see as ignorant, primitive and supersticious, and they still feel superior even if it became politically incorrect to say so.

Such is the world we live in the 21st century. Time for a new manifesto. Against politicians, CEOs, the bourgeoisie and the bankers who finance them all.  The Manifesto of the Poisoned Arrow. May they all be struck and die. Long live the Jungle.

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Tempo, Alexandre Segregio, http://www.ayahuasca-info.com/art/

Quando em 1943, o artista cubano Wifredo Lam pintou A Selva, ele tentava recapturar a essência da floresta enquanto entidade mágica. Lam regressara recentemente da Europa onde durante os 20 anos anteriores se tinha relacionado com cubistas e surrealistas no ambiente inebriante do mundo da arte parisiense daquele tempo. Filho de um imigrante chinês e de uma mulata, e afilhado de uma sacerdotisa de santeria, Wifredo Lam regressou a casa para reclamar a sua herança, observando a cultura e costumes afro-cubanos de forma a traduzi-los para a linguagem visual da arte moderna.

Lam absorvera a desilusão com a norma imposta por uma visão ocidental do mundo, que do seu sentido de superioridade, da sua exploração do mundo colonizado, das suas guerras racistas sem sentido, levou os artistas e escritores de todo o mundo a reverem a ética da ‘civilização’. Assim, voltaram-se para o ‘primitivismo’ – a dicotomia da vida burguesa urbana – começando a olhar a arte fora do ocidente como fonte de inspiração para uma nova expressão modernista. Se Picasso pintou as Demoiselles d’Avignon como fez, foi porque se fascinou com a arte das máscaras africanas, colocando a visão ocidental do primitivo, do proscrito, nas faces de prostitutas francesas, elas próprias proscritas de acordo com a falsa moralidade da sociedade européia. Artistas e escritores não-ocidentais como Lam, Tarsila do Amaral, Aimée Cesaire e Diego Rivera, que viveram a cena de Paris do inicio do século XX, voltaram a seus países procurando o ‘primitivo’ em casa, nas culturas indígenas e africanas, para que se pudessem inspirar numa modernidade cultural e nacional. O Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade foi escrito em 1928, oito anos depois de Francis Picabia ter lançado o seu Manifesto Canibal, e de fato, artistas e escritores da época parecem ter-se alimentado uns dos outros, esfomeados de inspiração, novas idéias, novas expressões que quebrassem a norma. E assim, A Selva foi a digestão que Lam fez desses processos de revisão cultural e visual. A composição é preenchida com vegetação, corpos humanos, símbolos de espiritualidades afro-cubanas, se confundido, desaparecendo no todo, como se as culturas ‘primitivas’ e seus ‘habitats naturais’ fossem um e o mesmo. Como se humanos e natureza estivessem inter-ligados. E de fato estamos.

Untitled, Pablo Amaringo, http://www.ayahuasca-info.com/art/

Recentemente ouvi de novo uma entrevista de quatro anos, com o autor inglês Graham Hancock que escreveu Supernatural, um trabalho antropológico, usando a Amazônia como campo de pesquisa, onde lida com práticas xamanicas, visões de ayahuasca e o mundo dos espíritos. Hancock é um pessimista no que toca ao futuro da humanidade. O pulmão do mundo é destruído para abrir caminho para o cultivo de soja, que serve para alimentar gado, para que o obeso primeiro mundo possa comer hamburguers. O cultivo tem uma duração de 15 anos deixando o solo estéril durante gerações. Hancock explica que é o constante cair de folhas secas que mantém fértil o solo da floresta tropical. Sem árvores, a floresta está condenada a se tornar num desolador deserto. E o autor aponta o dedo à ‘ética materialista’ do mundo ocidental que cortou a nossa conexão humana ao mundo dos espíritos, e não nos permite ouvir a floresta gritar de dor. Defende ainda o povo da Amazônia que corta as árvores por necessidade econômica. Uma necessidade que 6 meses de gastos na guerra do Iraque poderiam cobrir, se apenas os políticos escolhessem parar de desperdiçar dinheiro em destruição e antes o usassem sabiamente em preservação.

Foi esta imagem de uma selva viva, uma entidade gigante gritando parem, que me trouxe à memória a pintura de Wifredo Lam. A pintura reflete para mim essa inter-ligação entre natureza, humanidade e cultura. Hoje, enquanto escrevo estas palavras, os gritos da selva são também lançados pelas vozes indígenas que protestam contra a construção de uma hidro-elétrica que irá ser construída no rio Xingu – um protesto que só chegou aos meios de comunicação social porque a estrela-diretor de Avatar James Cameron se juntou a essas vozes e visitou o Brasil para mostrar seu apoio. O caso é apenas um entre as muitas lutas que os povos indígenas de todo o mundo têm constantemente de enfrentar contra uma globalização ocidentalizada que persiste em tratar o nosso planeta como um mero recurso para ganhos financeiros rápidos de governos e corporações multinacionais.

Não posso deixar de concluir que hoje, como na época de Lam, continuamos a viver com as mesmas velhas estruturas assentadas na mesma visão ocidental do mundo, que apenas aprendeu a fingir que ouve os proscritos, para poder validar as suas supostas instituições democráticas. A realidade é que políticos, CEOs e a burguesia, não estão nem aí para o indígena, que continuam a olhar como um ignorante, primitivo e supersticioso, sentindo-se superior a ele apesar de não o dizer para não ser politicamente incorreto.

É este o mundo em que vivemos em pleno século XXI. É altura de um novo manifesto. Abaixo os políticos, os executivos corporativos, a burguesia, e os banqueiros que os financiam. É o Manifesto da Seta Envenenada. Que sejam todos atingidos e morram. Viva a Selva.

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6 responses to “The Jungle, or the Poisoned Arrow Manifesto / A Selva, ou o Manifesto da Seta Envenenada

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