Colonial celebrations and the last black virgin / Celebrações coloniais e a última virgem negra


 

Belmonte, 3 Raças (3 races), 1930's

 

Today is a holiday in Brazil. Dedicated to the catholic patron saint of Brazil, Our Lady of Aparecida. The black female image symbolizes a mixture of virgin Mary and Iemanjá – the Yoruba goddess carried to Brazil by slaves where she became the divinity of the ocean. Its story reports back to the eighteenth-century, to the region of the mines, where the original sculpture was found. Faith and gold, what an explosive combination that is. Coincidentally yesterday ‘s date commemorated the arrival of Christopher Columbus to the Caribbean, the starting point of an unprecedented era of conquest and genocide brought upon the Americas by Western Europe and the catholic church. Faith and gold…

 

40th anniversary of the indigenous occupation of Alcatraz

In the former prison of Alcatraz, San Francisco, California (occupied in 1969 by the American Indian Movement and a symbol of resistance for native americans), American indigenous peoples from north to south of the continent gathered yesterday, at sunrise, to perform the sun ceremony and call attention to their plight. In the city, many never heard of the yearly native event, and prefer to enjoy the Columbus parade in the Italian neighbourhood or watch the air and navy show, in a celebration of the modern tools used in today’s U.S. territorial conquests.

Farther south, here in Brazil, the winds brought not Columbus but Cabral, a day also celebrated here as a holiday – the “discovery” day on april 21st – and a day where native sorrow is also ignored by a westernized settler descendant middle-class population, who often believes indigenous claims of genocide are largely exaggerated. Beyond the protectionist discourse concerning the indigenous, coming from both the conservative right and the supposedly socialist oriented left, are the same 500 year old notions of progress and development, which do nothing for the Indian. And yet, like Our Lady of Aparecida, the Indian is a symbol of Brazilian national identity, always present in postcards and national-geographic-style-articles.

In a country of catholic devotion and supposedly Christian values that places at its spiritual top the image of a black female, it is perverse that on average 10 women are killed every day. But like there is a tradition of racism here, there is also a tradition of misogyny. Both were brought by Columbus and Cabral, and the invasions that followed. Iberia, with its catholic fervour, its hatred for Jews and Muslims, was at their time the medieval equivalent for women, of Burka-style Afghanistan today. Women were largely secluded, or poor and out on the streets, or slaves. Witches were burnt or deported, often to Brazil, and life without the often dubious protection of a male counterpart was hard.

In the twentieth century, racial democracy in Brazil and luso-tropicalism in the Portuguese empire were the names applied to a colonial discourse that attempted to respond to criticisms by post war anti-colonial movements around the world. The theory, put together by brazilian sociologist Gilberto Freyre, presented miscegenation as proof of the absence of racism in the Portuguese empire. According to the empire’s propaganda machine, miscegenation was an old tradition for the Portuguese, who since the foundation of nationality, in the encounters of Christian conquerors and Moorish conquests, had developed an ‘inclination’ for darker women, later transported across the ocean and re-enacted with African and Native Brazilian women. A love story really.

The white woman’s invisibility in such discourse matches their invisibility in the colonial world where she rarely chose or accompany her male counterpart, remaining secluded and hidden from the eyes of others, particularly from the eyes of black and indigenous men. So in the end, the colonial discourse on miscegenation is debunked by the colonial fear of it, at least outside what Alcinda Ramos called the “white man’s reproductive unit”. Miscegenation becomes, under the light of post-colonial analysis, what Abdias do Nascimento called “a process of mullatization, through the sexual exploitation of the African woman, a phenomenon of pure and simple genocide” (Abdias do Nascimento, O Genocidio do Negro Brasileiro: processo de um racismo mascarado. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1978). It is no wonder then, that the word conquest has the double meaning of territorial claim and of sexual adventure. African, Indigenous or Iberian, they were all propriety of a lord. Just like the virgin Mary and the servants of the convents.

The day after Columbus arrived, there is one last black virgin left. A souvenir of the conquests where women always come with the territory.

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Hoje foi feriado no Brasil. Dedicado à santa católica, padroeira do Brasil, nossa senhora da Aparecida. A imagem feminina negra simboliza a sintese da virgem Maria com Iemanjá – a deusa Yoruba levada pelos escravos para o Brasil onde se tornou a divindade do oceano. A sua história reporta ao século 18, à região das minas, onde a escultura original foi encontrada. Fé e ouro, que combinação explosiva essa. E por falar nisso, ontem comemorou-se a chegada de Colombo ao Caribe, e o ponto de partida de uma era de conquista e genocidio sem precedentes, trazida para as américas pela europa ocidental e a igreja catolica. Fé e ouro…

40 aniversário da ocupação indigena de AlcatrazNa antiga prisão de Alcatraz, Califórnia (ocupada em 1969 pelo Movimento Americano Indigena e um simbolo de resistência para os nativo-americanos), os povos indigenas de norte a sul do continente reuniram-se ontem, ao nascer do sol, para praticar a cerimónia do sol e chamar atenção para a sua situação. Na cidade, muitos nunca ouviram falar do evento dos nativos, e preferem curtir o dia assistindo à parada do Colombo no bairro italiano ou assistir ao show aéreo e naval, celebrando assim as ferramentas modernas usadas nas atuais conquistas territoriais dos Estados Unidos.

Mais para sul, aqui no Brasil, os ventos trouxeram não Colombo mas Cabral, um dia também celebrado num feriado – o dia da “descoberta” a 21 de abril – e um dia em que as dores indigenas são também ignoradas por uma população médio-classista descendente de colonos ocidentalizados, que frequentemente acredita que as acusações de genocidio feitas por aqueles são largamente exageradas. Por trás de um discurso protecionista dos indigenas, que vem tanto da direita conservadora quanto da esquerda de suposta orientação socialista, estão 500 anos de velhas noções de progresso e desenvolvimento que em nada contribuem para a felicidade do indio. E no entanto, como nossa senhora da Aparecida, o indio é um simbolo nacional, sempre presente em postais e artigos ao estilo national geographic.

Num país onde a devoção católica e suposto valores cristãos colocam no topo a imagem de uma mulher negra, é preverso que em média 10 mulheres sejam mortas diáriamente. Mas como a tradição de racismo, existe também uma tradição de misogenia. Ambas trazidas por Colombo e Cabral, e as invasões que se seguiram. A Iberia, no seu fervor católico de ódio pelo judeus e muçulmanos, era no seu tempo o equivalente medieval para as mulheres, do Afeganistão “Burka-style” de hoje. As mulheres eram na larga maioria seclusas, ou pobres, mendigas ou escravas. As bruxas eram queimadas ou deportadas, muitas vinham para o Brasil, e a vida sem a duvidosa proteção de um parceiro era mais dura.

 

Rugendas, "Preparando Mandioca"

 

No século 20, particularmente pós grande guerra, democracia racial no Brasil e luso-tropicalismo no império português articulavam um discurso colonial que tentava responder às criticas dos movimentos internacionais contra o colonialismo. A teoria, montada pelo sociologo brasileiro Gilberto Freyre, apresentava a miscegenação como prova da ausência de racismo no império português e consequentemente no Brasil pós-colonial. De acordo com a máquina de propaganda do império, miscegenação era uma tradicão antiga para os portugueses, que desde a fundação da nacionalidade, nos encontros entre conquistadores cristãos e conquistadas muçulmanas, desenvolveram uma  ‘inclinação’ para mulheres de pele escura, mais tarde levada e re-ativada com as mulheres africanas e brasileiras. Enfim, uma verdadeira história de amor.

A invisibilidade da mulher branca nesse discurso, combina com a sua invisibilidade no mundo colonial onde raramente escolhia ou acompanhava o parceiro, mantendo-se seclusa e escondida do olhar alheio, particularmente do olhar do homem negro e do homem indigena. Afinal, o discurso colonial sobre miscegenação cobria o medo colonial da mesma, pelo menos fora daquilo a que Alcinda Ramos chamou a “unidade reprodutiva do homem branco”. À luz de uma analise pós-colonial, a miscegenação torna-se o que Abdias do Nascimento chamou “um processo de mulatização, através da exploração sexual da mulher africana, um fenomeno de genocidio puro e simples” (Abdias do Nascimento, O Genocidio do Negro Brasileiro: processo de um racismo mascarado. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1978). Não admira que a palavra conquista tenha o duplo significado de invasão territorial e aventura sexual. Africana, Indigena ou Ibérica, todas eram propriedade do senhor. Que nem a virgem Maria e as servas dos conventos.

No dia seguinte à chegada do Colombo, só resta agora uma virgem negra. Um souvenir das conquistas onde as mulheres sempre fazem parte do território.

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