From Algiers to Cairo, back and around the world / De Argel ao Cairo, de volta, e pelo mundo fora


“I have a lot of hope if we stay like this. Riot police beat me a lot. Nevertheless I will go down again tomorrow. If they want war, we want peace. I am just trying to regain some of my nation’s dignity.”

These were the last words that Ahmed Basiony posted on his Facebook page. On January 28th, a month ago today and a date now known as the Friday of Anger in Cairo, Basiony was shot 5 times while demonstrating against Mubarak’s regime. A local artist and musician, a young man of 32, a husband and a father, and one of the thousands of citizen freedom fighters who recently took the streets in middle eastern cities. Basiony was another Egyptian fed up with a dictatorial U.S./E.U. backed government and the consequent neo-liberal policies that suck local economies and trap citizens into dependence on an unfair global system of  labor and trade.

And just the other day I wrote of Queimada, the metaphoric embryo of an economically liberal modernity, the same that substituted slavery with paid labor, debt and voluntary loss of dignity. Precisely what Ahmed Basiony was trying to regain.

Queimada was directed by Gillo Pontecorvo, the Italian who made  just a few and yet extraordinary films. When I wrote of Queimada I mention Pontecorvo’s masterpiece The Battle of Algiers, so appropriate to review now that the people of the middle east once more intensify the struggle against dictators. Before, they fought against foreign colonialists, today they overthrow home-made fascists put in place to pursue the same colonial policies that they now call of neo-liberal. They may change the names but the shit remains the same.

And so I did watch The Battle for Algiers again. And again I couldn’t find it more in tune with our ‘post-colonial’ times. From scenes showing the torture of prisoners, including waterboarding so much in fashion these days, to the planting of bombs in the city center bars, it all looked too familiar. Except perhaps for the extra attention that Pontecorvo gives to the role of women, often neglected in male centered cinema and the media as freedom fighters, and usually seen more as passive supporters than active participants. In the Battle for Algiers women fight alright. They take off their veils, change their looks to westernized, are the most able to move in and out of the Kasbah without raising suspicion, carry guns that they pass on to the boys, and plant bombs placed in beautiful western branded handbags. My kind of girls.

Watching the Battle of Algiers also made me think of Frantz Fanon, the black psychiatrist from Martinique, who “prescribed violence”. He worked in a hospital in Algiers and was prompted by the tortured bodies and spirits of Algerian victims to join the Front for National Liberation and speak out openly against colonialism everywhere. Author of Black Skin, White Masks and The Wretched of the Earth, Fanon called for black revolution around the world, and could have become a much more prominent and well-known figure, had he not died young, of leukemia, in 1962 shortly before Algeria’s independence from France. Fanon was himself a black Caribbean, descendant of the black characters created by Pontecorvo for the Queimada allegory, and he saw early on the connection between colonialism in the Caribbean and in Northern Africa, as elsewhere; the connection between french colonialism and other colonialisms by other colonialists; and, most of all, he saw the connection between the struggles of the wretched of the earth and their potential to become freedom fighters, everywhere around the world.

The people of the Middle East sees it too. And from there the world watches popular rebellions unfold. Rebellions that could take place anywhere, because oppression is everywhere. From Queimada we learnt that struggles for abolition were fuelled as much by a sense of justice as by greed. Ahmed Basiony was moved by a sense of justice and love for his people. Protestors out there who take their bodies to the streets and face violence to stop injustice are also moved by a sense of justice and by love for their people. As Che Guevara once said, the true revolutionary is guided by a great feeling of love. But there are surely other intentions fuelling these rebellions and what they can bring to the few in power. There are surely backstage maneuvers articulating deceiving methods to keep the same shit in place under a different name. Will those moved by justice and love forget that soon?

For Basiony and those like him who died or were injured by state police aggression, let’s not. Let’s not forget Fanon’s prescription to fight back and let’s not forget the Queimada lesson. Let’s keep up the anger levels well on alert for signs of deception. Some say that the age of revolution is over and we are now in the age of revolt, but it is the sum of all revolts that can take us to a revolution. Could we? Ever? Please?

“Tenho esperança que as coisas continuem assim. A policia de choque me bateu muito. Mesmo assim amanhã volto lá. Se eles querem guerra, a gente quer paz. Apenas estou tentando recuperar alguma dignidade para a minha nação.”

Foram estas as últimas palavras que Ahmed Basiony publicou em seu Facebook. No dia 28 de janeiro, uma data que ficou conhecida como a Sexta-Feira de Raiva no Cairo, faz hoje um mês, Basiony foi baleado 5 vezes quando se manifestava contra o regime de Mubarak. Artista local e músico, com apenas 32 anos, marido e pai, e um dos milhares de cidadãos que lutando por liberdade tomaram recentemente as ruas das cidades do oriente médio. Basiony era mais um egípcio cansado de um governo ditatorial que apoiado pelos Estados Unidos e União Européia aplicava as políticas neoliberais que atualmente sugam as economias locais e encurralam cidadãos na dependência de um sistema global injusto de trabalho e comércio.

E eu que ainda outro dia escrevi sobre Queimada, o embrião metafórico da modernidade economicamente liberal, o mesmo que substituiu o sistema escravocrata com o trabalho pago, dividas e perda voluntária da dignidade. Precisamente o que Ahmed Basiony queria recuperar.

Queimada foi dirigido por Gillo Pontecorvo, o italiano que fez poucos, mas extraordinários filmes. Quando escrevi sobre Queimada mencionei a obra prima de Pontecorvo A Batalha de Argel, um filme atual para rever agora que os povos do Oriente Médio mais uma vez intensificam a luta contra as ditaduras. Antes contra os colonialistas estrangeiros, hoje contra os fascistas da casa, colocados no poder para continuar as mesmas políticas coloniais agora chamadas de políticas neoliberais. Mudam-se os nomes, mas a merda permanece a mesma.

E assim decidi rever A Batalha de Argel, um filme que sempre me parece bem sintonizado com a nossa nova era “pós-colonial”. Tudo é familiar, das cenas de tortura por afogamento tão na moda agora, ao plantar de bombas nos bares do centro da cidade. Exceto talvez a atenção extra que Pontecorvo dá ao papel das mulheres na luta pela liberdade, um papel quase sempre negligenciado no cinema e mídia machistas onde elas são representadas como apoiantes passivas em vez de participantes ativas. Na Batalha por Argel elas também lutam. Tiram os véus, mudam para um visual ocidentalizado, são as mais capazes de entrar e sair da Kasbah sem levantar suspeita, levam as armas que depois passam aos rapazes, e plantam as bombas que carregam em lindas bolsas de marcas ocidentais. Podiam ser minhas amigas.

Ao rever a Batalha de Argel pensei em Frantz Fanon, o psiquiatra negro de Martinica, que “receitava violência “. Trabalhou num hospital em Argel e foi precipitado pelos corpos e espíritos torturados de seus pacientes argelinos, a se juntar à Frente para a Libertação Nacional e a condenar abertamente o colonialismo onde quer que ele se encontre. Autor de Pele Negra, Máscaras Brancas e Os Condenados da Terra, Fanon defendia a revolução negra no mundo inteiro, e podia ter sido uma figura bem mais proeminente e conhecida se não tivesse morrido tão novo, de leucemia, em 1962 pouco antes da independência da Argélia. Fanon era um negro do Caribe, descendente dos personagens negros criados por Pontecorvo para a alegoria de Queimada, que viu desde cedo a ligação entre o colonialismo na sua região e no Norte de África, assim como em todos os lugares; que viu a ligação entre o colonialismo francês e outros colonialismos por outros colonialistas; e, acima de tudo, que viu a ligação entre as lutas dos condenados da terra e o seu potencial para fazer a guerra da liberdade.

Os povos do Oriente Médio já viram isso também. De lá, o mundo observa o desenrolar de rebeliões que podem acontecer em qualquer lugar, porque a opressão está por todo o lado. Queimada ensinou que as lutas pela abolição foram alimentadas tanto por um sentido de justiça quanto por ganância. Ahmed Basiony era movido tanto por esse sentido de justiça quanto por amor pelo seu povo. Acredito que manifestantes que levam seus corpos para a rua e os colocam face á violência do estado, são movidos por esse mesmo sentido de justiça e esse mesmo amor pelo povo. E já dizia Che Guevara que o verdadeiro revolucionário é movido por sentimentos de amor. Mas existem outras intenções alimentando estas revoltas e os que elas podem trazer a quem está no poder. Existem manobras nos bastidores articulando métodos ludibriantes para manter a mesma merda no lugar com outro nome. Será que quem é movido pela justiça e por sentimentos de amor esquecerá isso em breve?

Por Basiony e quem como ele morreu ou foi ferido por agressão de um estado policial não vamos esquecer. Não vamos esquecer a receita de Fanon e a lição de Queimada. Vamos antes manter altos os níveis de raiva e ficar bem alerta por sinais de logro. Dizem que as revoluções acabaram e estamos na era das revoltas, mas é a soma de todas as revoltas que faz a revolução. Será possível? Algum dia? Por favor?

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