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GasLand, the Saudi Arabia of Natural Gas / Terra do Gás, a Arábia Saudita Do Gás Natural

ENGLISH VERSION WRITTEN AND TRANSLATED BY ME FOR SHVOONG

Imagine abrir a água na cozinha e poder incendiá-la. Você esperaria uma explosão?

Pois é isso mesmo que comunidades rurais nos Estados Unidos estão tirando das torneiras por todos os lugares onde se minera gás natural. Quando Josh Fox recebeu uma proposta de uma companhia de Petróleo e Gás para arrendar a sua propriedade de 80 mil metros quadrados, resolveu partir numa viagem por “GasLand“, a terra do gás, e descobrir que história era aquela. Depois de viver a vida inteira numa linda casa construida em 1972 por seus pais hippies, no estado da Pensilvânia, o diretor de cinema fez a descoberta surpreendente que a sua terra se situava sobre uma formação rochosa, conhecida por Marcellus Shale, e por vezes chamada de Arábia Saudita do Gás Natural.

Admirado com a facilidade de alugar a sua propriedade a uma companhia de Petróleo e Gás por cerca de 100.000 doláres, Josh começou por entrevistar seus vizinhos sobre a proposta da empresa. O resultado saiu este ano como um dos candidatos ao Oscar de melhor documentário. GasLand rastreia as regulações da indústria começando com o governo Bush e a lei da energia que passou no congresso Norte-Americano em 2005. A lei foi proposta por nada menos que Dick Cheney, então vice-presidente e antigo diretor executivo da empresa Halliburton, responsável pela tecnologia de mineração conhecida por Fraturamento Hidraulico ou Fracking, que é hoje usada por companhias como Encana, Williams, Chesapeake e Cabot Oil and Gas. Depois de descobrir que a nova lei de energia isentava essas companhias de regulamentos sobre a qualidade da água e do ar em vigor desde a administração Nixon, Josh ficou ainda mais desconfiado.
A suspeita levou-o por uma viagem no país, do Colorado ao Oklahoma, pelos campos de mineração da América, e ao interior das bacias rochosas onde se encontra o gás natural. A tecnologia fracking quebra essas bacias com um jato de água misturada com quimicos, jogado a cerca de 2500 metros de profundidade. O problema é que esses químicos são soltos no ar, na água, em todos os organismos vivos, destruindo o modo de vida de numerosas comunidades rurais, deixando pessoas e animais doentes. Sintomas tipicos incluem dores de cabeça, perda de olfato, desorientação, dores no corpo excruciantes e finalmente a morte. E apesar do fato das companhias de Petróleo e Gás não serem obrigadas a tornar público quais químicos são utilizados neste tipo de mineração, Josh Fox entrevista a ambientalista premiada Theo Colborn, cujo ativismo identificou cerca de 900 produtos químicos utilizados no Fracking e prejudiciais para a saúde humana.
GasLand destroi o mito do gás natural ser uma indústria limpa e segura, e enquanto Josh observa que a tecnologia Fracking promete se extender pelos campos da Europa, da Africa e da América Latina, somos deixados com a sensação desconfortável que em breve ar e água contaminados podem se alastrar do quintal do diretor ao nosso. Um documentário a não perder.

The Big Scoop / O Grande Furo

In Woody Allen’s The Scoop, a dead reporter attempts to come back to reveal the name of a serial killer, whose identity he just learnt from the assassin’s own murdered assistant, whom he met in purgatory. Confused? Yes. It’s a comedy mystery novel, and yet … 🙂 not as good as the Big Murdock Scoop.

I am fascinated by this story: it has the makings of a great mystery novel and makes us mortals feel part of an epic, where the forces of good and evil battle towards a happy ending. But in the end, it’s all as virtual as the internet, and as remote as purgatory – or so I hope… It’s overwhelming. Just think about it: the dimension of the story and the exposure to a public audience; the fortunes and the power of all the characters in this plot. Does life imitate art, or is it the other way around?

It seems that in a near future, real life will be served as season soap opera or feature film. Take the phone hacking scandal for example, we can just lay out a draft of the main characters for a book or even a movie:

1) We have a powerful multi-millionaire media tycoon, corrupt and without scruples, married to a decades younger wife who stereotypically would have married him for the money and has a terrible relationship with his many children from different ex-wives who went quietly away with fat divorce settlements – that she hopes to get too one day.

2) We have the loyal son, who may not so much want all of daddy’s fortune and power as much as his love – here I’m inspired by Oliver Stone’s psychological analysis of Georgie W.’s emotional attitude towards his own daddy George. I just feel it makes the son character look even more pathetic which is good for the story, since he’s on the dark side of the force.

3) We have the red-headed media witch in the persona of the editor-in-chief who hacked like a bitch and admitted paying the pigs for information. So much for the well-reputed round the world Sherlock Holmes Scotland yard.

4) We have a prime-minister! He hired one of the other editors-in-chief to be his media advisor, and we also have previous governments with close connections to the multimillionaire’s media corporation.

5) We have a world-famous actor, whose car breaks down one day on an empty dark road where a paparazzi, now turned bar owner, suddenly pops up, and ends up telling him all of the above dangerous liaisons, which the actor then publishes in the New Statesman.

6) We have a dead reporter who was one of the whistleblowers on the story, and we have a well reputed journalist who wrote over 70 articles on the subject of Murdock News Corporation hacking people’s phones from the queen to a vanished girl, the latest being the story, who touched the hearts of all viewers and gave the human tone to the story.

Life and Fiction.

In fiction, this is a great daily show to watch. In the end the bad will be punished, which means that governments around the world will fall and the celebrity culture will finally disappear. Anorexic girls will be fat again and bullying will be eradicated. Our heros, the journalists and the victims, will feel the bitter victory but will be strong enough to go on, walk into the horizon, and leave the viewers with a sight of hope for a better future in media practices.

I love fiction. But life… life is everything. It is greater than fiction. Often stranger than fiction. And I’m curious: in real life … who’s the all-powerful that Murdoch really pissed off?

That’s the Big Scoop.

No Grande Furo de Woody Allen um repórter morto tenta voltar para contar quem é o famoso assassino em série cuja identidade descobriu através de sua assistente assassinada que conheceu no purgatório. Confuso? Sim. É uma verdadeira comédia-mistério, e no entanto … 🙂 não tão boa quanto o Grande Furo chamado Murdock.

Estou fascinada com esta história: tem todos os ingredientes de um grande romance policial e faz nós mortais nos sentirmos parte de um épico, onde o bem e o mal batalham por um final feliz. No entanto, é tudo tão virtual quanto a internet e tão remoto quanto o purgatório – ou pelo menos assim espero… É esmagador. Pensem só na dimensão desta história, na exposição a uma audiência pública; nas fortunas e no poder de todos os personagens deste roteiro. A vida imita a arte, ou é ao contrário?

Parece que num futuro próximo, a vida real será servida como novela ou longa metragem. Por exemplo, com esta história do escandalo das escutas telefonicas, a gente pode esboçar frases soltas sobre os personagens principais para um livro e até mesmo um filme:

1) Temos um tubarão da mídia multimilionário, corrupto e sem escrúpulos, casado com uma mulher décadas mais nova que estereotipicamente teria casado com ele por dinheiro, e que teria uma péssima relação com os vários filhos das várias ex-mulheres que desapareceram silenciosamente com acordos de divórcio chorudos – que ela também espera obter um dia.

2) Temos um filho leal, que talvez não queira tanto a fortuna e poder do pai quanto seu amor – e aqui me inspiro na análise psicológica da atitude emocional de George W. relativamente ao seu paizinho George, feita por Oliver Stone. Acho que isso torna o personagem do filho ainda mais patético, o que é bom para a história uma vez que ele está do lado negro da força.

3) Temos a bruxa ruiva na personagem da editora-chefe que mandou colocar escutas à la gardére e admitiu pagar a porcos por informação. Já era, a boa reputação mundial da Scotland Yard do Sherlock Holmes.

4) Temos um primeiro-ministro! Ele contratou um dos editores-chefes para ser seu relações públicas, e temos também vários governos prévios com ligações bem próximas à corporação do multimilionário.

5) Temos um ator mundialmente famoso, cujo carro quebrou numa estrada deserta e escura onde surgiu um paparazzi, agora também dono de bar, e que acabou lhe contando todas as ligações perigosas descritas acima, que o ator viria a publicar no jornal New Statesman.

6) Temos um reporter morto que foi um dos denunciantes do caso e um jornalista de excelente reputação que escreveu 70 artigos sobre esse assunto da Murdock News Corporation andar pondo escutas nos telefones das pessoas, desde a rainha até à criança desaparecida, sendo supostamente este último, o caso que finalmente tocou os corações do espectadores, dando à história uma dimensão humana.

Vida e Ficção.

Em ficção, esta é uma ótima novela diária. No final os maus são castigados, o que significa que governos por todo o mundo cairão e a cultura das celebridades finalmente desaparecerá. As anoréxicas voltam a ser gordas e o bullying será erradicado. Nossos heróis, os jornalistas e as vitimas, sentirão o amargo sabor da vitória mas estarão mais fortalecidos para continuar, caminhar em direção ao horizonte, e deixar os espectadores com um vislumbre de esperança relativamente ao futuro das práticas midiáticas.

Adoro ficção assim. Mas a vida… a vida é tudo. É maior que a ficção. Ás vezes é ainda bem mais estranha que a ficção. E eu fico curiosa: na vida real… quem é o todo poderoso querendo se vingar do Murdoch?

Esse é o Grande Furo.



The Gods Must Be Crazy / Os Deuses Devem Estar Loucos

“Do you know what a black hole is?” asks a depressed Woody Allen, concerned with the purpose of life, to Cookie, the black prostitute lying on his bed.

“Yeah… that’s how I make my living” answers Cookie.

And that’s where humanity comes from.

African Eve

80.000 years ago, the daughters of Eve crossed the Gates of Grief leaving África to Yemen, and thus giving the first step in the history of humanity’s migrant past. They were the mothers of humanity, out of Africa, and like any human being today, their mitochondrial line led to one woman, a matriarch who 120.000 years before, somewhere in Africa, bread the first biologically viable human being in  modern shape. From the sisters who didn’t leave to Yemen and chose to stay behind in the cradle of humanity, descend the populations of Africa, northern or sub-Saharan. Or so say official studies of DNA trails tracing back our ancestry to those remote times. But with so many twists and turns, migrations and deportations, who knows the precise journey of his/her mother’s mother’s mother’s and so on?

The Mother is common to all of us and that being enough to ridicule racists everywhere and put an end to that cancer, it is also on Her that we should be focusing on. What that means basically is that we should be putting that old philosophical question back on the table: “where did we come from?” Or rather: “where the hell did she come from?”. Was she a cute primate who mutated to produce the first human being? How did that happened? Was she the first aquatic ape to leave the water? Or did she just appear on land? Was she a product of evolution that one day – bam – I’m here and I’m a human being, or was she created/genetically mutated by the gods aka aliens?

Being our oldest human mother an African, it is perhaps logical that if there is an answer to the above questions, it must also be found in Africa. In the oral history or the wisdom of the elder, on which African sagacity philosophers put an emphasis, and in the cave paintings that survive throughout the continent and the sculpture works depicting mythological figures. That is, the superstitions and the fetishes, if we were to use European colonial condescending language. Past that in what are supposedly post-colonial times, shouldn’t we – western reasoning aside – listen to the remaining African philosophers, the shamans who survived colonialism?

Yesterday, during a conversation with a friend about roots and aliens, I was forced to recall an interview I watched with one such man, the Zulu Shaman Credo Mutwa, who tells the incredible creation story of humanity and the saga that followed. A long time ago, we were all hermaphrodites and had the ability to reproduce individually. We didn’t know the joys of sex and that’s a bummer. But then again you can’t miss what you don’t know right? We were also mute, something that did wonders for our good communication skills, and had telepathic powers both among ourselves and with the other animals that inhabited our motherland in South Africa. Game was abundant, the planet was a nurturing home to all, and we were happy.

One day, out of the clear blue sky, from a ball of fire, descended the gods. They were strange creatures, tall and slender, with jointless arms and legs and reptilian appearance. The Chitauri, as they are called by the Zulu, were led by a despot named Umbaba Gorrontuari Zamahongo, who had big antelope horns in his head. The invaders wanted gold for whatever reason, but they didn’t want to dig it. And so they decided to turn the hermaphrodite earthlings into their slaves, setting a precedent that was to be followed more recently by the Spanish and Portuguese conquistadores of the middles ages.

As if that wasn’t enough, and perhaps to stop us from reproducing, the gods divided the population and genetically modified – I’m using contemporary language here of course – each half into men and women. We didn’t like that. Men hated the boobs and women were disgusted by penises. They simply did not know what to do with it. We became miserable, working those mines like slaves…well, literally, because we did become the slave species of the gods. It was then that Umbaba’s wife, the gentle and sweet lizard female, Mai Zarantuari Zamahongo, who felt compassion for our misery, made a clumsy attempt to bring us joy. She told us about our bodies and what we could do together with them. She taught us about sex and we were happy again. But the Chitauri weren’t. When we discovered sex, productivity decreased. We were doing it everywhere, in the mines, the bushes, the caves and under the sky. Who cares about gold? We were humans!

The Chitauri weren’t. And so they did care about gold. Umbaba was furious and Mai once again came up with a clumsy solution. “Let’s make women pregnant then. Men will leave them alone and return to the mines”. She really screwed us all girls with that one, but she meant well. To reinforce control over the population – here too I’m speaking in contemporary terms -, Umbaba also adopted a methodology well-known in any political science course curriculum today: divide and rule. He gave us the power to speak but he cursed us with different languages. After that, I believe the snowball of mess got completely out of control and with the rapid population increase, the gods, in inferior numbers, left if not by fear of rebellion than by the exhaustion of precious metal resources. And so we were left unequal, no telepathic powers, lousy communication skills, left alone to roam the planet out of Africa, lost in the meaning of life, and looking in prayer to the skies as if from there anything good had ever come to us.

I heard of other stories of reptilian gods who descended upon earth, some to teach us something useful, like starting a fire or planting maize. Others not so friendly, like the Annunaki who landed in Sumeria 6000 years ago jump starting a civilization in the region of Mesopotamia, where Iraq is today. They too, ruled over the land like despots, taking earthling females to procreate demigods from whom descend the royal dynasties of Europe, always obsessed with keeping it all in the family and maintaining the “blue” blood. As for the Dogon people of west Africa, who migrated from Egypt and Syria to Mali thousands of years ago, they were telling anthropologists Germaine Dieterlen and Marcel Griaule in the 1940’s that their gods had the appearance of fish and came from a companion star to Sirius. Sirius is visible in the night sky but the planet of the Dogon gods is only visible by telescope and was not discovered until the 1970’s, when it gained the creative name of Sirius B by the also creative NASA. The gods must have been kind to the Dogon, because they venerate them and re-enact their appearance in masks worn in sacred rituals. And around the world there are stories of flying dragons and serpents and of good and evil gods descending from the skies in balls of fire. Myths?

The Chitauri story is also biblically familiar. The creation as division of one being into two, the reptile who tells of the secrets of nakedness and offers the forbidden fruit, the punishment particularly of women who would naturally be the ones to be approached on such matters by another female, even if a reptilian. Coincidentally, in greek mythology, discord to the world is brought by goddess aka alien Eris by throwing, you guess it, an apple! And there is also the curse of the language, not as means of communication but of miscommunication. Remember the Tower of Babel? Are these just coincidences?

On April Fool’s Day, I’m thinking that the history we’ve been told about our origins might be a complete or partial pack of lies. Perhaps creation, modification and evolution all co-existed together. It is obvious that mental devolution accompanied technological evolution ever since the thumb thing happened. But that’s not a sign of creation by a perfect being, it is rather the result of a surgery gone wrong. The alien theory makes therefore more sense than creation.

Sorted out the DNA trail and evolution/devolution and sorted out how our oldest mother was modified to give birth to the rest of humanity, we are left with only one question. Who the fuck created the hermaphrodites?

Until we find out, bless me Mother and bless me Cookie, the black hole of humanity.

“Você sabe o que é um buraco negro? Pergunta um Woody Allen deprimido e preocupado com o significado da vida, a Cookie, a prostituta negra deitada na sua cama.

“Sei. É como eu ganho a vida” responde Cookie.

E é daí que vem a humanidade.

Há 80.000 anos, as filhas de Eva cruzaram por mar os Portões do Pesar fazendo a travessia da África para o Yemen, e dando assim o primeiro passo na história das grandes migrações humanas. Foram elas as mães da humanidade fora de África, e como todos os seres humanos hoje em dia, a sua linha mitocondrial conduzia a apenas uma mulher, uma matriarca que algures na África 120.000 anos antes havia parido o primeiro ser humano moderno biologicamente viável. Das suas irmãs que não partiram para o Yemen, e escolheram permanecer no berço da humanidade, descendem as populações da África, a norte e sul do deserto do Sahara. Pelo menos é a conclusão dos estudos oficiais da trilha do DNA que rastreou os nossos ancestrais até esses tempos remotos. Mas com tantas idas e vindas, migrações e deportações, vai saber o percurso preciso da mãe da sua mãe da sua mãe e por ai fora?

A Mãe é comum a todos e sendo isso suficiente para ridicularizar qualquer racista e acabar com esse câncer, também é Nela que deveríamos focar. O que isso significa é que deveríamos colocar de novo na mesa aquela velha pergunta filosófica “de onde viemos?”. Ou antes: “donde ela veio?”. Era ela uma primata bonitinha que sofreu uma mutação produzindo assim o primeiro ser humano? E como isso aconteceu? Ela foi a primeira primata aquática a sair da água? Ou sempre habitou em terra? Era ela um produto da evolução que um dia – BAM – “tou aqui, sou um ser humano”, ou foi ela criada/geneticamente modificada pelos deuses aka alienígenas?

Sendo a mais velha das nossas Mães uma mulher Africana, é talvez lógico que procuremos as perguntas colocadas acima também em África. Na história oral e na sabedoria dos anciãos onde os filósofos de sagacidade africanos põe ênfase, e nas pinturas rupestres e esculturas representativas de figuras mitológicas. Ou seja, nas superstições e fetiches, se quisermos usar uma linguagem colonialista e condescendente. Passado esse período, em tempos supostamente pós-coloniais, não deveríamos nós – pondo de parte o raciocínio ocidental – ouvir os poucos filósofos africanos que restam, os xamãs que sobreviveram à colonização?

Ontem, durante uma conversa com uma amiga sobre raízes e alienígenas, relembrei uma entrevista que vi com um desses filósofos, o Xamã Zulu Credo Mutwa, que contou a incrível história da criação da humanidade e a saga que se seguiu. Há muito, muito tempo éramos todos hermafroditas e tínhamos a capacidade de nos reproduzirmos individualmente. Não conhecíamos os prazeres do sexo o que era chato. Mas como não se sente a falta do que se não conhece… Éramos ainda todos mudos, o que fazia maravilhas pela nossa capacidade de comunicação, e tínhamos poderes telepáticos tanto entre nós como com os outros animais que habitavam a nossa terra mãe na África do Sul. A caça era abundante, o planeta nutria todos e éramos felizes.

Um dia, do profundo azul do céu, por meio de uma gigante bola de fogo, desceram os deuses. Eram criaturas estranhas, altos e magros, sem articulações nos membros e de aparência réptil. Estes Chitauri, como são chamados pelos Zulus, eram liderados por um déspota chamado Umbaba Gorrontuari Zamahongo, que tinha cornos de antílope na cabeça. Os invasores vinham em busca de ouro mas não queriam minerá-lo. Assim, decidiram fazer dos terráqueos hermafroditas seus escravos, criando um precedente que seria replicado mais recentemente pelos conquistadores espanhóis e portugueses da idade média.

Como se isso não bastasse, e talvez para que a gente parasse de se reproduzir, os deuses dividiram a população e modificaram geneticamente – uso aqui termos contemporâneos obviamente – cada metade em homem e mulher. Não gostámos nada disso. Os homens odiavam os peitos das mulheres e elas achavam os pénis nojentos. Não sabiam simplesmente o que fazer com aquilo. Tornámo-nos infelizes, trabalhando nas minas como escravos … e éramos literalmente a espécie escrava dos deuses. Então, a mulher de Umbaba, a gentil e doce lagarta Mai Zarantuari Zamahongo, sentiu compaixão pela nossa miséria e resolveu fazer uma tentativa desastrada para nos trazer algum prazer na vida. Falou-nos de nossos corpos e o que podíamos fazer juntos com eles. Ensinou-nos sexo e sentimo-nos felizes de novo. Mas os Chitauri não acharam graça nenhuma. Quando descobrimos o sexo, a produtividade diminuiu. Trepávamos por todo o lado, nas minas, nos arbustos, nas cavernas e a céu aberto. Oh alegria! Ninguém queria saber do ouro. Éramos humanos!

Mas o Chitauri não eram. E gostavam de ouro. Umbaba ficou furioso e Mai tentou consertar a confusão com mais uma solução desastrosa. “Faremos que as mulheres engravidem. Assim os homens as deixam em paz e voltam para as minas”. Foi com essa que ela nos fodeu a todas, mas a intenção era boa. Para apertar o controle da população – de novo aqui uso termos contemporâneos – Umbaba adotou ainda uma metodologia bem conhecida do currículo de qualquer curso em ciência política de hoje: dividir para governar. Deu-nos assim o poder da fala mas deixou-nos falando línguas diferentes. Depois disso acredito que perderam o controle de tudo e foi tal a bola de neve de confusão, mais o aumento populacional, que os deuses, em números bastante inferiores, partiram se não por medo de uma revolta, então por esgotamento dos recursos de metais preciosos. E assim nos deixaram. Desiguais, sem poderes telepáticos, com terríveis capacidades de comunicação, abandonados para errar pelo planeta para fora d’África, perdidos no sentido da vida e desde então jogando as mãos para o céu em oração, como se de lá alguma vez tivesse vindo alguma coisa boa.

Já ouvi várias histórias de deuses reptilianos que desceram à terra, alguns para ensinar alguma coisa útil como fazer fogo ou plantar trigo. Outros não eram tão simpáticos, como os Annunaki que baixaram na Suméria há 6000 anos iniciando a primeira grande civilização da Mesopotâmia, onde hoje é o Iraque. Também eles eram déspotas, tomando as fêmeas terráqueas para procriar os semideuses de quem descendem as famílias reais européias, sempre obcecadas em manter tudo em família para preservar o sangue “azul”. Quanto ao povo Dogon da África ocidental, que migrou do Egito e da Síria há milhares de anos para o Mali, já falavam seus xamãs na década de 40 aos antropologistas Germaine Dieterlen e Marcel Griaule, de seus deuses com aparência de peixe que vinham de uma estrela companheira de Sirius. Sirius é visível de noite no céu mas o planeta dos deuses dos Dogon só pode ser visto de telescópio e não foi descoberto até a década de 70, quando lhe foi dado o criativo nome de Sirius B pela também criativa NASA. Os deuses devem ter sido bons para os Dogon, porque são por eles venerados e personificados nas máscaras usadas em rituais sagrados. E por todo o mundo existem histórias de dragões e serpentes voadoras, e de deuses benevolentes e maquiavélicos que descem dos céus em bolas de fogo. Mitos?

A história dos Chitauri é ainda biblicamente familiar. A criação enquanto divisão de um ser em dois, o réptil que conta o segredo da nudez e oferece o fruto proibido, o castigo em particular da mulher que seria a quem naturalmente uma outra fêmea, ainda que réptil, se dirigiria com informação daquela importância. Coincidentemente, na mitologia grega, a discórdia vem ao mundo por meio de uma maçã atirada por uma deusa aka alienígena de nome Eris. E ainda tem a história da praga da linguagem, não enquanto um meio de comunicação, mas de falta de comunicação. Lembram-se da Torre de Babel? São isto apenas coincidências?

No dia das mentiras, penso que a história que nos contaram sobre as nossas origens é um completo pacote de isso mesmo: mentiras. Talvez criação, modificação e evolução tenham co-existido. É obvio que devolução mental tem consistentemente acompanhado evolução tecnológica desde que apareceu o tal do polegar. Mas isso em nada parece um produto criado por um ser perfeito. Parece mais o resultado de uma cirurgia que correu mal. A teoria alienígena faz assim muito mais sentido que a teoria da criação.

Resolvido o enigma da trilha de DNA e o mistério da evolução/devolução; e resolvido o mistério da mutação da Mãe da humanidade, resta apenas uma pergunta: quem criou os hermafroditas?

Até descobrirmos, benção Mãe e benção Cookie, o buraco negro da humanidade.

Cookie (Hazelle Goodman) in Deconstructing Harry, 1997


Hip-Hop for the Arab Revolution / Hip-Hop para a Revolução Árabe

album cover - Stuck Between Iraq and a Hard Place Vol.2 (2006) by the Narcicyst

Can you think of an arab character you can empathize with in a hollywood movie? One that is not subservient to the westerner or not an oppressed woman hiding behind a veil? Not a character you hate or pity, but one you actually respect? … No?

Neither couldn’t writer Jack Shaheen who wrote the book, nor Sut Jhally who directed the documentary, Reel Bad Arabs , with the elucidating subtitle: How Hollywood Vilifies a People. Edward Said’s Orientalism published in 1978 pioneered the study of how the East and Easterners were described by Westerners through art and literature, for a Western audience, in direct opposition to it and to the slandering of the East and Easterners. In order words, how the East was constructed as an idea … by the West. Gandhi said of the western civilization that it would be a very good idea. Eastern civilization would then be a real lousy one. An idea that facilitated, and still facilitates, an acceptance by the western public of the western taking over of arab nations. In the old colonial empires as in the new, now that the stereotype of the arab has been reduced mostly to the male terrorist and the voiceless oppressed female. With the multi-billion movie industry centered in hollywood contributing to the representation of the “Bad Arab”, how can we change that image?

Arabs themselves are changing it. From the recent rebellions to the greatest rebellion of all, the universal culture of hip-hop where voiceless citizens find a voice. After watching an interview with Yassin Salman AKA The Narcicyst, an Iraqi MC living in Canada, about politics, hip-hop and the arab revolution, I found a video on youtube that hollywood could never make. Because it shows the faces of arabs through another lens, as arabs are, as everyone else. Of all shapes and colors, with all types of visuals and a huge diversity of smiles. Like me and you. All Narcicyst free to download here.

Consegue pensar num personagem árabe de um filme de Hollywood com quem simpatize? Um que não seja ou submisso ao ocidental ou que não seja uma mulher oprimida atrás de um véu? Não um personagem que seja odioso ou digno da sua pena, mas alguém que você respeite? … Não?

Nem o escritor Jack Shaheen que escreveu o livro, nem Sut Jhally que dirigiu o documentário Reel Bad Arabs, com o subtítulo elucidativo: Como Hollywood Vilifica um Povo. Em Orientalismo, publicado em 1978, Edward Said fez uma análise pioneira sobre a forma com o Ocidente descreveu o Oriente através da arte e da literatura, em oposição direta a uma audiência Ocidental e de uma forma que denegria os Orientais. Ou seja, como o oriente foi construído como uma idéia … do ocidente. Gandhi disse um dia que a civilização ocidental era uma ótima idéia. A civilização oriental seria uma idéia péssima então. Uma idéia que facilitou, e facilita ainda, que o público ocidental aceite passivamente a colonização do oriente médio. Nos velhos impérios coloniais como nos novos, agora que o estereótipo do árabe é reduzido ao macho terrorista e à fêmea oprimida e sem voz na sociedade. Com a indústria multibilionária de hollywood contribuindo para a representação do “Mau Árabe”, como podemos mudar essa imagem?

Os próprios árabes se encarregam disso. Desde as mais recentes revoltas, à maior revolta de todas, a cultura universal hip-hop onde os cidadãos sem voz encontram um meio de expressão. Depois de ver uma entrevista com Yassin Salman AKA The Narcicyst, um MC iraquiano que vive no Canadá, sobre política, hip-hop e a revolução árabe, encontrei um vídeo (acima) que hollywood nunca podia ter feito. Porque mostra as faces de árabes através de uma outra lente, como os árabes realmente são, como todos os outros. De todos os tamanhos e cores, com todos os tipos de visual e com uma enorme diversidade de sorrisos. Como eu e como vocês.

Toda a música de Narcicyst pode ser baixada aqui.


From Algiers to Cairo, back and around the world / De Argel ao Cairo, de volta, e pelo mundo fora

“I have a lot of hope if we stay like this. Riot police beat me a lot. Nevertheless I will go down again tomorrow. If they want war, we want peace. I am just trying to regain some of my nation’s dignity.”

These were the last words that Ahmed Basiony posted on his Facebook page. On January 28th, a month ago today and a date now known as the Friday of Anger in Cairo, Basiony was shot 5 times while demonstrating against Mubarak’s regime. A local artist and musician, a young man of 32, a husband and a father, and one of the thousands of citizen freedom fighters who recently took the streets in middle eastern cities. Basiony was another Egyptian fed up with a dictatorial U.S./E.U. backed government and the consequent neo-liberal policies that suck local economies and trap citizens into dependence on an unfair global system of  labor and trade.

And just the other day I wrote of Queimada, the metaphoric embryo of an economically liberal modernity, the same that substituted slavery with paid labor, debt and voluntary loss of dignity. Precisely what Ahmed Basiony was trying to regain.

Queimada was directed by Gillo Pontecorvo, the Italian who made  just a few and yet extraordinary films. When I wrote of Queimada I mention Pontecorvo’s masterpiece The Battle of Algiers, so appropriate to review now that the people of the middle east once more intensify the struggle against dictators. Before, they fought against foreign colonialists, today they overthrow home-made fascists put in place to pursue the same colonial policies that they now call of neo-liberal. They may change the names but the shit remains the same.

And so I did watch The Battle for Algiers again. And again I couldn’t find it more in tune with our ‘post-colonial’ times. From scenes showing the torture of prisoners, including waterboarding so much in fashion these days, to the planting of bombs in the city center bars, it all looked too familiar. Except perhaps for the extra attention that Pontecorvo gives to the role of women, often neglected in male centered cinema and the media as freedom fighters, and usually seen more as passive supporters than active participants. In the Battle for Algiers women fight alright. They take off their veils, change their looks to westernized, are the most able to move in and out of the Kasbah without raising suspicion, carry guns that they pass on to the boys, and plant bombs placed in beautiful western branded handbags. My kind of girls.

Watching the Battle of Algiers also made me think of Frantz Fanon, the black psychiatrist from Martinique, who “prescribed violence”. He worked in a hospital in Algiers and was prompted by the tortured bodies and spirits of Algerian victims to join the Front for National Liberation and speak out openly against colonialism everywhere. Author of Black Skin, White Masks and The Wretched of the Earth, Fanon called for black revolution around the world, and could have become a much more prominent and well-known figure, had he not died young, of leukemia, in 1962 shortly before Algeria’s independence from France. Fanon was himself a black Caribbean, descendant of the black characters created by Pontecorvo for the Queimada allegory, and he saw early on the connection between colonialism in the Caribbean and in Northern Africa, as elsewhere; the connection between french colonialism and other colonialisms by other colonialists; and, most of all, he saw the connection between the struggles of the wretched of the earth and their potential to become freedom fighters, everywhere around the world.

The people of the Middle East sees it too. And from there the world watches popular rebellions unfold. Rebellions that could take place anywhere, because oppression is everywhere. From Queimada we learnt that struggles for abolition were fuelled as much by a sense of justice as by greed. Ahmed Basiony was moved by a sense of justice and love for his people. Protestors out there who take their bodies to the streets and face violence to stop injustice are also moved by a sense of justice and by love for their people. As Che Guevara once said, the true revolutionary is guided by a great feeling of love. But there are surely other intentions fuelling these rebellions and what they can bring to the few in power. There are surely backstage maneuvers articulating deceiving methods to keep the same shit in place under a different name. Will those moved by justice and love forget that soon?

For Basiony and those like him who died or were injured by state police aggression, let’s not. Let’s not forget Fanon’s prescription to fight back and let’s not forget the Queimada lesson. Let’s keep up the anger levels well on alert for signs of deception. Some say that the age of revolution is over and we are now in the age of revolt, but it is the sum of all revolts that can take us to a revolution. Could we? Ever? Please?

“Tenho esperança que as coisas continuem assim. A policia de choque me bateu muito. Mesmo assim amanhã volto lá. Se eles querem guerra, a gente quer paz. Apenas estou tentando recuperar alguma dignidade para a minha nação.”

Foram estas as últimas palavras que Ahmed Basiony publicou em seu Facebook. No dia 28 de janeiro, uma data que ficou conhecida como a Sexta-Feira de Raiva no Cairo, faz hoje um mês, Basiony foi baleado 5 vezes quando se manifestava contra o regime de Mubarak. Artista local e músico, com apenas 32 anos, marido e pai, e um dos milhares de cidadãos que lutando por liberdade tomaram recentemente as ruas das cidades do oriente médio. Basiony era mais um egípcio cansado de um governo ditatorial que apoiado pelos Estados Unidos e União Européia aplicava as políticas neoliberais que atualmente sugam as economias locais e encurralam cidadãos na dependência de um sistema global injusto de trabalho e comércio.

E eu que ainda outro dia escrevi sobre Queimada, o embrião metafórico da modernidade economicamente liberal, o mesmo que substituiu o sistema escravocrata com o trabalho pago, dividas e perda voluntária da dignidade. Precisamente o que Ahmed Basiony queria recuperar.

Queimada foi dirigido por Gillo Pontecorvo, o italiano que fez poucos, mas extraordinários filmes. Quando escrevi sobre Queimada mencionei a obra prima de Pontecorvo A Batalha de Argel, um filme atual para rever agora que os povos do Oriente Médio mais uma vez intensificam a luta contra as ditaduras. Antes contra os colonialistas estrangeiros, hoje contra os fascistas da casa, colocados no poder para continuar as mesmas políticas coloniais agora chamadas de políticas neoliberais. Mudam-se os nomes, mas a merda permanece a mesma.

E assim decidi rever A Batalha de Argel, um filme que sempre me parece bem sintonizado com a nossa nova era “pós-colonial”. Tudo é familiar, das cenas de tortura por afogamento tão na moda agora, ao plantar de bombas nos bares do centro da cidade. Exceto talvez a atenção extra que Pontecorvo dá ao papel das mulheres na luta pela liberdade, um papel quase sempre negligenciado no cinema e mídia machistas onde elas são representadas como apoiantes passivas em vez de participantes ativas. Na Batalha por Argel elas também lutam. Tiram os véus, mudam para um visual ocidentalizado, são as mais capazes de entrar e sair da Kasbah sem levantar suspeita, levam as armas que depois passam aos rapazes, e plantam as bombas que carregam em lindas bolsas de marcas ocidentais. Podiam ser minhas amigas.

Ao rever a Batalha de Argel pensei em Frantz Fanon, o psiquiatra negro de Martinica, que “receitava violência “. Trabalhou num hospital em Argel e foi precipitado pelos corpos e espíritos torturados de seus pacientes argelinos, a se juntar à Frente para a Libertação Nacional e a condenar abertamente o colonialismo onde quer que ele se encontre. Autor de Pele Negra, Máscaras Brancas e Os Condenados da Terra, Fanon defendia a revolução negra no mundo inteiro, e podia ter sido uma figura bem mais proeminente e conhecida se não tivesse morrido tão novo, de leucemia, em 1962 pouco antes da independência da Argélia. Fanon era um negro do Caribe, descendente dos personagens negros criados por Pontecorvo para a alegoria de Queimada, que viu desde cedo a ligação entre o colonialismo na sua região e no Norte de África, assim como em todos os lugares; que viu a ligação entre o colonialismo francês e outros colonialismos por outros colonialistas; e, acima de tudo, que viu a ligação entre as lutas dos condenados da terra e o seu potencial para fazer a guerra da liberdade.

Os povos do Oriente Médio já viram isso também. De lá, o mundo observa o desenrolar de rebeliões que podem acontecer em qualquer lugar, porque a opressão está por todo o lado. Queimada ensinou que as lutas pela abolição foram alimentadas tanto por um sentido de justiça quanto por ganância. Ahmed Basiony era movido tanto por esse sentido de justiça quanto por amor pelo seu povo. Acredito que manifestantes que levam seus corpos para a rua e os colocam face á violência do estado, são movidos por esse mesmo sentido de justiça e esse mesmo amor pelo povo. E já dizia Che Guevara que o verdadeiro revolucionário é movido por sentimentos de amor. Mas existem outras intenções alimentando estas revoltas e os que elas podem trazer a quem está no poder. Existem manobras nos bastidores articulando métodos ludibriantes para manter a mesma merda no lugar com outro nome. Será que quem é movido pela justiça e por sentimentos de amor esquecerá isso em breve?

Por Basiony e quem como ele morreu ou foi ferido por agressão de um estado policial não vamos esquecer. Não vamos esquecer a receita de Fanon e a lição de Queimada. Vamos antes manter altos os níveis de raiva e ficar bem alerta por sinais de logro. Dizem que as revoluções acabaram e estamos na era das revoltas, mas é a soma de todas as revoltas que faz a revolução. Será possível? Algum dia? Por favor?


The wife or the whore? / A esposa ou a puta?

Slave work or paid work? The wife or the whore? To have the duty to pay for a home, medical care and things for a wife, or to pay for what you need with no further responsabilities? “Which one do you prefer gentleman?”

The question is posed by Marlon Brando, brillant in the role of Sir William Walker in Gillo Pontecorvo’s Burn! Brando interprets a british imperial agent, and the argument above is meant to push for aboliton in a fictitious recently independent Caribbean country. What a coincidence that the principles of liberalism, where paid work pays for consumerism creating a new kind of slave, the worker, walked hand in hand with the good and fair cause of abolition. Which poses the question: was the fight for abolition all heart?

The stage is a fictitious island, modeled after Haiti, named Queimada, situated in the Caribbean and portrayed as a former portuguese colony now governed by a small white elite, while possessing a large population of black slaves. The role of Brando is reminiscent of the contemporary CIA agent, who trains a rebel Al-Qaeda and than turns against it when it no longer serves him.

“I’m not Portuguese. I’m a friend. Do you understand?” The black woman remained silent. You can never trust a colonial wherever he’s from. And smart woman she was. Sir William Walker had been sent by the british empire to find a rebel heart among the black men of Queimada. A man willing to fight for abolition, to win and to accept that the new british way was fair. He found that man in José Dolores, interpreted by Colombian actor Evaristo Marquéz who, moved by the plight of black people takes arms against the white oligarchy and wins abolition for his island. Ten years on, when Walker goes back to Queimada – now working for an english sugar company that has the island’s government hostage to the ‘market’ -, José is back in the mountains with his guerrilla fighting against the policies of liberalism that starve his people to death.

I could’t help thinking: if Sir William Walker was performing his royal duties today, he would probably be a world bank field agent. An economic hitman operating to push for the neo-liberal policies that facilitate the ways corporations corner poor countries and their people into dependence on a global market that only makes a few rich. The roots of the modern world are encapsulated in the history of Queimada, which is the history of Haiti and the history of most of the world that was once colonized by Europe. It is the history of liberalism and neo-liberalism, the history of promises and deceits, the history of oppression and resistance. Pontecorvo is brilliant in such portrayals as proved in his previous notorious work The Battle of Algiers about French colonial rule and resistance in Algeria. In Burn! Pontecorvo goes beyond the history of oppression that pushed resistance forward in an island that could be any colony of the world. He connects history to present pointing out the policies that were at the roots of contemporary inequalities around the globe, and makes a powerful analogy between slavery and labor, and the ilusion of freedom.

So gentlemen, which one do you prefer? The wife or the whore?

Trabalho escravo ou pago? A esposa ou a puta? Ter o dever de pagar uma casa, cuidados médicos e coisas para a mulher, ou pagar pelo que se precisa sem mais responsabilidades? “O que preferem meus senhores?”

A pergunta é colocada por Marlon Brando, brilhante no papel de Sir William Walker em Queimada! de Gillo Pontecorvo. Brando interpreta um agente imperial britânico, e o argumento acima pretendia acentuar os beneficios da abolição numa recém-independente ilha ficticia do Caribe. Que coincidência que os principios do liberalismo, onde o trabalho pago compra o consumerismo criando um novo tipo de escravo, o trabalhador, andaram de mão dada com a boa e justa causa da abolição. O que levanta a pergunta: foi a luta pela abolição toda coração?

O palco é uma ilha ficcional, modelada no Haiti, chamada Queimada, situada no Caribe e retratada como uma ex-colônia portuguesa agora governada por uma pequena elite branca, com uma população maioritariamente constituida por escravos negros. O papel de Brando lembra o de um agente contemporâneo da CIA, que treina um qualquer Al-Qaeda e depois se volta contra este quando deixa de servir o seu propósito.

“Não sou português. Sou um amigo. Entende?” A mulher negra permaneceu silenciosa. Não se pode confiar num colonial venha ele de onde vier. Era uma mulher inteligente. Sir William Walker tinha sido enviado pelo império britânico para encontrar um coração rebelde entre os homens de Queimada. Um homem que estivesse disposto a lutar pela abolição, a ganhar e a aceitar que o novo método inglês era justo. Encontrou esse homem em José Dolores, interpretado pelo ator colombiano Evaristo Marquéz que, movido pelo sofrimento do povo negro, pegou em armas contra a oligarquia branca, ganhando assim a abolição para a sua ilha. Dez anos mais tarde, quando Walker regressa a Queimada – trabalhando agora para uma companhia de açucar inglesa que tornou a ilha em escrava do ‘mercado’ -, José regressou às montanhas com seus guerrilheiros para lutar contra as politicas liberais que condenam o seu povo à fome.

Não pude deixar de pensar: se Sir William Walker cumprisse seu dever real hoje em dia, ele seria provavelmente um agente de campo do Banco Mundial. Um matador econômico operando para forçar politicas neo-liberais que facilitam a forma como corporações encurralam os países pobres e seus povos numa dependência do mercado global que só enriquece uns poucos. As raízes do mundo moderno estão encapsuladas na história de Queimada, que é também a história do Haiti e a história da maior parte do mundo que foi um dia colonizado pela Europa. É a história do liberalismo e do neo-liberalismo, uma história de promessas e enganos, uma história de opressão e resistência. Pontecorvo é brilhante nesses retratos como prova o seu notório trabalho A Batalha de Argel sobre o governo colonial francês e a resistência argelina. Em Queimada! Pontecorvo vai além da história de opressão que levou à resistência numa ilha que podia ser qualquer colônia do mundo. Ele liga a história ao presente apontando as politicas que estão na raíz das desigualdades contemporâneas à volta do mundo, e faz uma poderosa analogia entre a escravidão e o trabalho, e a ilusão de liberdade.

E então meus senhores, o que preferem? A esposa ou a puta?


The Ghost Writer or the true story of the Blairs? / O Escritor-Fantasma ou a verdadeira história do casal Blair?

Sometime ago I wrote here that there should be an international holiday to throw shoes to politicians’ heads. So I was happy to know that after being shame-shoed, Tony Blair cancelled a public appearance for the signing of his memoirs.

And I couldn’t help remembering Roman Polanski’s new film, The Ghost Writer. Reminiscent of the Film Noir genre, of which Polanski is a master, mixed with the ambience of a Hitchcock thriller, the film follows a brilliant script based on what could well be the true story of no less than Tony and Chérie Blair. 007 Pierce Brosnan plays the role of British prime minister Adam Lang, “exiled” in the luxurious american home of the milionaire editor of his memoirs. While he dictates his story to a Ghost-Writer interpreted by scottish actor Ewan McGregor, Blair … sorry, I mean … Lang is accused of personally authorizing the torture of prisioners in this non-fictious, but rather real, absurd war. Lang’s secret, revealed at the end of the film, could well be the secret of the Blair (Bliar) family.

I won’t tell … it’s worth watching! It’s Roman Polanski, it’s pure imagetic art made of symbolism and extraordinary content.

Algum tempo atrás escrevi aqui que devia haver um feriado internacional para atirar sapatos à cabeça de politicos. Por isso fiquei contente por saber que após ter sido vaiado à sapatada, Tony Blair cancelou aparecer em público no lançamento de sua biografia.

E não pude deixar de fazer o paralelo com o novo filme de Roman Polanski The Ghost Writer (O Escritor Fantasma). Reminescente dos filmes noir de que Polanski é mestre, sai uma mistura de thriller Hitchcockiano com um roteiro brilhante baseado naquilo que poderia ser a verdadeira história de nada menos que, Tony e Chérie Blair. O 007 Pierce Brosnan interpreta o papel de ex-primeiro ministro do Reino Unido, Adam Lang,  “exilado” na luxuosa casa americana do milionário editor de suas memórias. Enquanto dita a sua história a um escritor-fantasma, interpretado pelo ator escocês Ewan McGregor, Blair … ai perdão … Lang, é acusado de autorizar pessoalmente a tortura de prisioneiros nesta guerra absurda que não é ficticia, mas sim real. O segredo da familia Lang revelado no final, pode bem ser o segredo da familia Blair.

Não vou contar… vejam que vale a pena! É Roman Polanski, é pura arte imagética feita de simbolismo e extraordinário conteúdo.