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V for Vagina, not Vendetta / V de Vagina, não de Vingança

"Um pinto duro coloca a mulher no seu lugar" Lilith Adler, 1996.

“You’re on your own.” That’s how Lilith Adler’s statement regarding this image ends. The man in the picture, may be the handsome charming prince that every woman is said to be on the look out for, but he symbolizes how power and sex continue to reflect male dominance in society. It’s present in the image that shocked the conservative art world – because it is not the body of a woman we came accustomed to gaze at in western art  – and it is certainly present in the text accompanying the image. Because, what non-masochistic woman unwilling to submit, either haven’t heard that or something like it?

Lilith Adler died before she completed 40 years old. A young woman, a feminist, whose work was incredibly poignant in addressing the issue of gender power relations. She was only 10 years old when Linda Nochlin published her (in)famous essay “Why Have There Been No Great Women Artists?” addressing historical male dominance in the art world and market. A text that not only inspired countless women artists to address the question of male dominance in all areas, but also set art historians on a quest for female artists neglected by the history of art throughout centuries. Research far from being completed and male dominance far from being erased. You see it in attitudes, you still see it in the art world – including street art world, the street being symbolically male, while women still belong in the domesticity of the home. And mostly you see it in language. And I had a good hint at that very recently.

Less than two weeks ago, I nearly got attacked by a man, who thought it was very rude of me to push him away hard, after he tried to corner me and grab me by the waist. Since I didn’t act with submission like a good girl – or should I say, since I reacted like a woman – I immediately became a thin ugly bitch who was, and I quote, treating him like a dog. As if I treated animals like they were retarded misogynists! I had to tell two other guys before, to remove their hands off me when they approached me thinking they have the right to do so, or that it is charming and irresistible to a woman, that sort of closeness from a total stranger. One of them apologized – good, he might be learning something – the other called me rude. But the third one won the prize of the year (so far) for the “prick looking to straighten me out”. And he might have tried to do so, if I wasn’t immediately surrounded by friends and bar security. I’m thin, he was obese. I’m weaker, he’s stronger.

Documentary “Weapon of War: Confessions of Rape in Congo”, 2009 Documentário “Arma de Guerra: Confissões de Estupro no Congo”, 2009

Absurd. I reacted as I should. As every woman should. Male friends agree. What an idiot that guy. They tell me that. But then I hear the same friends say things like: such and such institutions “opened the legs” to such and such. Language. Opening the legs, an expression in Portuguese, which indicates submission by such to such. You can use it in any sense but the expression is sexually rooted, because, who opens her legs? Men or women?

Language. It is not an accident that “conquest” and “adventure” are expressions used to describe what was in fact western colonization of the world – or a sex affair. Male dominance of land and women. Because women came with the territory. And if I say “fuck that”, ” screw it”, “up yours”, I will be using other expressions, which clearly indicate sexual male dominance and came into common vocabulary to describe something we despise, give no value to and it’s under our power to dominate. Language.

Being a woman who will not be straightened out, who prefers casual relations with male friends who I can respect, who’s not afraid to stroll around town at early hours of the morning, I have to constantly face attitudes that, even if unsaid, denote that I am one of the following:

1) A bitch (language: female dog);

2) Feminazi (language: male’s submission to women because in their ignorance feminism is the opposite of misogyny);

3) Crazy (language: women should not walk by themselves at night, that being the crime rather than a possible assault or rape);

4) Lesbian (language: a women not interested in a particular man, according to that same man).

I must say I took some pleasure in watching Lisbeth’s vendetta on the prick who raped her, in The  Girl With the Dragon Tattoo, adapted from Stieg Larsson‘s first volume of the Millenium series, Men Who Hate Woman (ironically translated to Portuguese as Men Who Don’t Love Women. Language: Hate being different from Not To Love). But I don’t want to focus on a V for Vendetta. I prefer V for Vagina.

So I was interested in learning about V-Day, an initiative by Eve Ensler, author of the Vagina Monologues and a great promoter of the City of Joy a community of women in Kongo where rape victims have been able to heal from gender violence in that country. The Campaign “One Billion Rising” launched by the writer, is a call for women, and men who love them, to dance together wherever they are, until the violence stops. The date has been set to Feb. 14, 2013. Feminism asks for equality and respect between genders. And while women feel threatened when they go for a stroll at any hour of the day or night Feminism is a concept that needs to exist.

And maybe some day, we can call our V, a V for Victory, when we are no longer alone like Lilith Adler reminded us.

“Você está sozinha.” Assim termina o texto da artista Lilith Adler sobre a imagem que se segue. O homem retratado até parece o príncipe encantado com quem supostamente todas as mulheres sonham.

"Um pinto duro coloca a mulher no seu lugar" Lilith Adler, 1996.

Mas ele simboliza como poder e sexo continuam a ser reflexos de uma sociedade dominada pelo macho. A ideia está presente na imagem que chocou o lado conservador do mundo da arte – apenas porque não retrata o corpo da mulher que estamos habituados a observar na arte ocidental –, e está certamente presente no texto que acompanha a imagem. Que mulher não masoquista, que recusa submissão, não ouviu já esta fase ou algo parecido?

Lilith Adler morreu antes dos 40 anos de idade. Uma mulher jovem, com um portfólio aguçado que tratou o tema das relações de poder entre gêneros. Tinha apenas 10 anos quando Linda Nochlin publicou o seu famoso ensaio  “Why Have There Been No Great Women Artists” (Onde Estao as Grandes Mulheres da Arte?) indagando sobre o domínio masculino no mundo e mercado artístico. Um texto inspirador para que inúmeras mulheres artistas tratassem o tema do domínio masculino em todas as áreas da vida, e que lançou os historiadores da arte numa busca pelas artistas negligenciadas na disciplina ao longo dos séculos. Uma pesquisa longe de estar terminada e um domínio masculino longe de ser apagado. Vê-se pelas atitudes, ainda se vê no mundo da arte – incluindo na arte de rua, a rua sendo simbolicamente território do homem, enquanto as mulheres pertencem na esfera doméstica do lar. E principalmente, é notório na linguagem. Como testemunhei recentemente.

Há menos de duas semanas atrás, quase fui atacada por um homem, que achou muito rude da minha parte, o empurrar com força após me fechar num canto e me tentar agarrar pela cintura. Como não fui submissa como uma boa moça – ou seja, reagi como uma mulher – fui imediatamente agredida com os termos de vagabunda, magrela, feiosa que tinha, e cito, tratado o sujeito “que nem cachorro”. Como se eu tratasse os animais do mesmo jeito que trato um misoginista retardado! Antes já havia dito a outros dois machos que tirassem a mão de mim quando chegaram se achando no direito de me agarrar, ou pensando que é charmoso e irresistível para uma mulher esse tipo de proximidade vinda de um completo desconhecido. Um pediu desculpa – que bom, talvez tenha aprendido alguma coisa -, o outro disse que eu era grossa. Mas foi o terceiro que ganhou o premio do ano (ate agora) de “maior escroto querendo me colocar no lugar”. E talvez tivesse tentando se eu não fosse imediatamente rodeada de amigos (e amigas) e pelos seguranças do bar. Eu sou magra, ele é obeso. Eu sou mais fraca, ele é mais forte.

After-rape scene from “The Girl With The Dragon Tattoo”, 2011 Cena pós-estupro em “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres”, 2011

Um absurdo. Eu reagi como devia. Como qualquer mulher devia. Os amigos homens concordam. Que idiota aquele tipo – eles disseram. Mas depois ouço os mesmo amigos em conversa dizerem coisas do tipo: tal instituição abriu as pernas para não sei que tal… Linguagem. Abrir as pernas, uma expressão que indica submissão de algo ou alguém a algo ou alguém. Pode ser usada em qualquer sentido, mas tem raízes sexuais porque afinal, quem abre as pernas? Homens ou mulheres?

Linguagem. Não é a toa que “conquista” e “aventura” são expressões usadas para descrever o que de fato foi a colonização ocidental do mundo – ou uma ligação sexual. Domínio masculino sobre terra e fêmeas. Porque as mulheres vinham com o território. E se eu disser “foda-se” ou “tomar no cú” estarei usando expressões, que claramente indicam domínio sexual masculino e que entraram na gíria para descrever algo que se despreza, não se dá valor, que está sob o nosso poder de dominar. Linguagem.

Sendo uma mulher que recusa ser colocada “no seu lugar”, que prefere relações casuais com homens que consigo respeitar e que não tem medo de passear de madrugada, sou constantemente confrontada com atitudes que, se não expressadas verbalmente, denotam um dos seguintes rótulos:

1) Vagabunda (linguagem: puta, cachorra);

2) Feminazi (linguagem: submissão do homem a mulher, porque na sua ignorância eles acham que feminismo é o oposto de machismo);

3) Louca (linguagem: as mulheres não devem andar por aí de madrugada como se fosse esse o crime, em vez do potencial de agressão e estupro);

4) Lésbica (linguagem: a mulher que não esta interessada num homem, de acordo com esse mesmo homem).

Devo dizer que tirei algum prazer em ver a vingança de Lisbeth com o escroto que a estuprou, em Os Homens Que Não Amam as Mulheres (The Girl With the Dragon Tattoo), adaptado do primeiro volume da serie Millenium do autor sueco Stieg Larsson, que no original se chama Os Homens Que Odeiam a Mulheres (Linguagem: Odiar é diferente de Não Amar e no entanto a versão portuguesa prefere um tom mais leve). Mas não quero me focar num V de Vendetta. Prefiro um V de Vagina.

Assim, fiquei muito interessada em saber que se aproxima o Dia V, uma iniciativa de Eve Ensler, autora dos Monólogos da Vagina e grande promotora da City of Joy (Cidade da Alegria), uma comunidade de mulheres no Congo, onde vitimas de estupro se reúnem para se ajudarem na recuperação de traumas relacionados com a violência contra as mulheres naquele país. A Campanha “One Billion Rising” (Um Bilhão Se Erguendo), lançada pela autora, é uma chamada a todas as mulheres e os homens que as amam, para dançarem juntos, onde quer que estejam, até a violência acabar, e a data foi marcada para o próximo dia 14 de fevereiro de 2013. Feminismo pede igualdade e respeito entre gêneros. E enquanto as mulheres se sentirem ameaçadas por resolverem dar uma caminhada seja de dia, seja de noite, Feminismo é um conceito que precisa de existir.

Talvez um dia a gente possa chamar o nosso V, V de Vitoria. Quando já não estivermos sozinhas, como nos lembrou Lilith Adler.

Artists “Occupy” Mission to Protest Violence Against Women, San Francisco, 2011 Artistas "Ocupam" o bairro Mission para Protestar a Violência Contra as Mulheres, San Francisco, 2011


The Big Scoop / O Grande Furo

In Woody Allen’s The Scoop, a dead reporter attempts to come back to reveal the name of a serial killer, whose identity he just learnt from the assassin’s own murdered assistant, whom he met in purgatory. Confused? Yes. It’s a comedy mystery novel, and yet … 🙂 not as good as the Big Murdock Scoop.

I am fascinated by this story: it has the makings of a great mystery novel and makes us mortals feel part of an epic, where the forces of good and evil battle towards a happy ending. But in the end, it’s all as virtual as the internet, and as remote as purgatory – or so I hope… It’s overwhelming. Just think about it: the dimension of the story and the exposure to a public audience; the fortunes and the power of all the characters in this plot. Does life imitate art, or is it the other way around?

It seems that in a near future, real life will be served as season soap opera or feature film. Take the phone hacking scandal for example, we can just lay out a draft of the main characters for a book or even a movie:

1) We have a powerful multi-millionaire media tycoon, corrupt and without scruples, married to a decades younger wife who stereotypically would have married him for the money and has a terrible relationship with his many children from different ex-wives who went quietly away with fat divorce settlements – that she hopes to get too one day.

2) We have the loyal son, who may not so much want all of daddy’s fortune and power as much as his love – here I’m inspired by Oliver Stone’s psychological analysis of Georgie W.’s emotional attitude towards his own daddy George. I just feel it makes the son character look even more pathetic which is good for the story, since he’s on the dark side of the force.

3) We have the red-headed media witch in the persona of the editor-in-chief who hacked like a bitch and admitted paying the pigs for information. So much for the well-reputed round the world Sherlock Holmes Scotland yard.

4) We have a prime-minister! He hired one of the other editors-in-chief to be his media advisor, and we also have previous governments with close connections to the multimillionaire’s media corporation.

5) We have a world-famous actor, whose car breaks down one day on an empty dark road where a paparazzi, now turned bar owner, suddenly pops up, and ends up telling him all of the above dangerous liaisons, which the actor then publishes in the New Statesman.

6) We have a dead reporter who was one of the whistleblowers on the story, and we have a well reputed journalist who wrote over 70 articles on the subject of Murdock News Corporation hacking people’s phones from the queen to a vanished girl, the latest being the story, who touched the hearts of all viewers and gave the human tone to the story.

Life and Fiction.

In fiction, this is a great daily show to watch. In the end the bad will be punished, which means that governments around the world will fall and the celebrity culture will finally disappear. Anorexic girls will be fat again and bullying will be eradicated. Our heros, the journalists and the victims, will feel the bitter victory but will be strong enough to go on, walk into the horizon, and leave the viewers with a sight of hope for a better future in media practices.

I love fiction. But life… life is everything. It is greater than fiction. Often stranger than fiction. And I’m curious: in real life … who’s the all-powerful that Murdoch really pissed off?

That’s the Big Scoop.

No Grande Furo de Woody Allen um repórter morto tenta voltar para contar quem é o famoso assassino em série cuja identidade descobriu através de sua assistente assassinada que conheceu no purgatório. Confuso? Sim. É uma verdadeira comédia-mistério, e no entanto … 🙂 não tão boa quanto o Grande Furo chamado Murdock.

Estou fascinada com esta história: tem todos os ingredientes de um grande romance policial e faz nós mortais nos sentirmos parte de um épico, onde o bem e o mal batalham por um final feliz. No entanto, é tudo tão virtual quanto a internet e tão remoto quanto o purgatório – ou pelo menos assim espero… É esmagador. Pensem só na dimensão desta história, na exposição a uma audiência pública; nas fortunas e no poder de todos os personagens deste roteiro. A vida imita a arte, ou é ao contrário?

Parece que num futuro próximo, a vida real será servida como novela ou longa metragem. Por exemplo, com esta história do escandalo das escutas telefonicas, a gente pode esboçar frases soltas sobre os personagens principais para um livro e até mesmo um filme:

1) Temos um tubarão da mídia multimilionário, corrupto e sem escrúpulos, casado com uma mulher décadas mais nova que estereotipicamente teria casado com ele por dinheiro, e que teria uma péssima relação com os vários filhos das várias ex-mulheres que desapareceram silenciosamente com acordos de divórcio chorudos – que ela também espera obter um dia.

2) Temos um filho leal, que talvez não queira tanto a fortuna e poder do pai quanto seu amor – e aqui me inspiro na análise psicológica da atitude emocional de George W. relativamente ao seu paizinho George, feita por Oliver Stone. Acho que isso torna o personagem do filho ainda mais patético, o que é bom para a história uma vez que ele está do lado negro da força.

3) Temos a bruxa ruiva na personagem da editora-chefe que mandou colocar escutas à la gardére e admitiu pagar a porcos por informação. Já era, a boa reputação mundial da Scotland Yard do Sherlock Holmes.

4) Temos um primeiro-ministro! Ele contratou um dos editores-chefes para ser seu relações públicas, e temos também vários governos prévios com ligações bem próximas à corporação do multimilionário.

5) Temos um ator mundialmente famoso, cujo carro quebrou numa estrada deserta e escura onde surgiu um paparazzi, agora também dono de bar, e que acabou lhe contando todas as ligações perigosas descritas acima, que o ator viria a publicar no jornal New Statesman.

6) Temos um reporter morto que foi um dos denunciantes do caso e um jornalista de excelente reputação que escreveu 70 artigos sobre esse assunto da Murdock News Corporation andar pondo escutas nos telefones das pessoas, desde a rainha até à criança desaparecida, sendo supostamente este último, o caso que finalmente tocou os corações do espectadores, dando à história uma dimensão humana.

Vida e Ficção.

Em ficção, esta é uma ótima novela diária. No final os maus são castigados, o que significa que governos por todo o mundo cairão e a cultura das celebridades finalmente desaparecerá. As anoréxicas voltam a ser gordas e o bullying será erradicado. Nossos heróis, os jornalistas e as vitimas, sentirão o amargo sabor da vitória mas estarão mais fortalecidos para continuar, caminhar em direção ao horizonte, e deixar os espectadores com um vislumbre de esperança relativamente ao futuro das práticas midiáticas.

Adoro ficção assim. Mas a vida… a vida é tudo. É maior que a ficção. Ás vezes é ainda bem mais estranha que a ficção. E eu fico curiosa: na vida real… quem é o todo poderoso querendo se vingar do Murdoch?

Esse é o Grande Furo.

A Poet of the African liberation / Um Poeta da libertação Africana

Agostinho Neto, 1st President of Liberated Angola, 1975-1979

On my last post, I quoted Ghandi who said that the western civilization was a very good idea. I also spoke of Frantz Fanon, medical doctor of African descent from the Martinique, who worked in a hospital in Algeria and was inspired by his patients to speak up against french colonial rule in that country and colonialism around the world. Today, on the 50th anniversary of the beginning of the colonial war in the African territories under control by the portuguese, I recall another doctor and revolutionary, who was also a poet and who wrote of western civilization. Agostinho Neto fought portuguese colonial rule in his homeland, Angola. Upon the end of the colonial war, which lasted from 1961 to 1974, he became the first president of new republic of Angola until his death in 1979. His party, MPLA (Popular Movement for the Liberation of Angola), remains in power to this day under dictator José Eduardo dos Santos, who sadly subverted the principles of any popular liberation philosophy. But the ideas and the words of the revolutionary poet still echo on the 21st century, now that revolution spreads from the arab north to the black south of África, now that it is clear to increasing numbers of people that western civilization is doomed.

On a day where inumerous publications, under the pretense of being fair and imparcial, report the  history of the colonial war as having started on a specific day – the day that guerrillas attacked several plantations killing both whites masters and blacks servants -, it is good to recall that the war for liberation began much earlier. In fact, centuries ago on the day that the portuguese set foot in African land. The poem below by Agostinho Neto speaks of that. Of the interlude of despair and suffering, of massacres and genocides. Centuries being told, and some buying into it, of how civilization was good, splitting the colonized into assimilated and non-assimilated. Dividing to rule. Perhaps that answers the question  which for me is not really whether that day was the day that the colonial war started. The question is: what took them so long?


No meu último post citei Ghandi que disse que a civilização ocidental era uma ótima ideia. Escrevi ainda sobre Frantz Fanon, médico nascido na Martinica, descendente de africanos, que trabalhou num hospital na Argélia e foi inspirado por seus pacientes a falar públicamente contra o governo colonial francês naquele país, e contra o colonialismo em todo o  mundo. Hoje, 50 anos após o início da guerra colonial nos territórios africanos controlados pelos portugueses, lembro outro médico e revolucionário, que era também poeta e se pronunciou através da poesia sobre a civilização ocidental. Agostinho Neto lutou contra o colonialismo português na sua terra angolana. Com o fim da guerra colonial, que durou de 1961 a 1974, tornou-se o primeiro presidente da nova república de Angola até sua morte em 1979. O seu partido, o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), continua até hoje no poder com a liderança do ditador José Eduardo dos Santos, que infelizmente subverteu os principios de qualquer filosofia de libertação popular. Mas as ideias e as palavras do poeta revolucionário ecoam ainda pelo século 21, agora que a revolução se espalha do norte árabe ao sul negro da África, agora que é claro para cada vez mais gente que a civilização ocidental está condenada.

No dia em que várias publicações, sobre o pretexto e a pretensão de serem ‘imparciais’, relatam a história da guerra colonial como tendo começado num dia especifico – o dia em que guerrilhas atacaram várias plantações matando tanto os senhores brancos quantos os serviçais negros-, é bom lembrar que a guerra da libertação começou muito mais cedo. Na realidade séculos antes, no dia em que os portugueses colocaram o pé em terras africanas. O poema abaixo de Agostinho Neto fala disso. Desse interlúdio de desespero e sofrimento, de massacres e genocídios. Séculos escutando, e muitos acreditando, que a civilização é boa, dividindo os colonizados entre assimilados e não-assimilados. Dividir para governar. Talvez isso responda à pergunta que para mim não é se a guerra colonial começou ou não naquele dia. A pergunta é: porque demoraram tanto tempo?

Civilização ocidental                                                        Western Civilization

Latas pregadas em paus                                           Cans nailed to sticks
fixados na terra                                                         grounded on earth
fazem a casa                                                             make the home 
Os farrapos completam                                            Rags complete 
a paisagem íntima                                                     the intimate landscape
O sol atravessando as frestas                                    The sun shines across the cracks
acorda o seu habitante                                              waking up residents
Depois as doze horas de trabalho                              Then twelve hours work
escravo                                                                     slave work
Britar pedra                                                               Break rocks
acarretar pedra                                                          carry rocks
britar pedra                                                                break rocks
acarretar pedra                                                          carry rocks
ao sol                                                                         under the sun
à chuva                                                                      under the rain
britar pedra                                                                break rock
acarretar pedra                                                           carry rock
A velhice vem cedo                                                    Old age comes early
Uma esteira nas noites escuras                                    A mat on a dark night
basta para ele morrer                                                  is enough for him to die
grato                                                                           thankful
e de fome.                                                                  and hungry

Fogo e ritmo

Sons de grilhetas nas estradas
cantos de pássaros
sob a verdura úmida das florestas
frescura na sinfonia adocicada
dos coqueirais
fogo no capim
fogo sobre o quente das chapas do Cayatte.
Caminhos largos
cheios de gente cheios de gente
em êxodo de toda a parte
caminhos largos para os horizontes fechados
mas caminhos
caminhos abertos por cima
da impossibilidade dos braços.

Ritmo na luz
ritmo na cor
ritmo no movimento
ritmo nas gretas sangrentas dos pés descalços
ritmo nas unhas descarnadas
Mas ritmo

Ó vozes dolorosas de África!

		(Sagrada esperança)

Fire and rhythm

The sound of chains on the roads
the songs of birds
under the humid greenery of the forest
freshness in the smooth symphony
of the palm trees
fire on the grass
fire on the heat of the Cayatte plains
Wide paths
full of people full of people
an exodus from everywhere
wide paths to closed horizons
but paths
paths open atop
the impossibility of arm
	tum tum

Rhythm in light
rhythm in color
rhythm in movement
rhythm in the bloody
cracks of bare feerhythm on torn nails
yet rhythm

Oh painful African voices

		(Sacred hope)

Hip-Hop for the Arab Revolution / Hip-Hop para a Revolução Árabe

album cover - Stuck Between Iraq and a Hard Place Vol.2 (2006) by the Narcicyst

Can you think of an arab character you can empathize with in a hollywood movie? One that is not subservient to the westerner or not an oppressed woman hiding behind a veil? Not a character you hate or pity, but one you actually respect? … No?

Neither couldn’t writer Jack Shaheen who wrote the book, nor Sut Jhally who directed the documentary, Reel Bad Arabs , with the elucidating subtitle: How Hollywood Vilifies a People. Edward Said’s Orientalism published in 1978 pioneered the study of how the East and Easterners were described by Westerners through art and literature, for a Western audience, in direct opposition to it and to the slandering of the East and Easterners. In order words, how the East was constructed as an idea … by the West. Gandhi said of the western civilization that it would be a very good idea. Eastern civilization would then be a real lousy one. An idea that facilitated, and still facilitates, an acceptance by the western public of the western taking over of arab nations. In the old colonial empires as in the new, now that the stereotype of the arab has been reduced mostly to the male terrorist and the voiceless oppressed female. With the multi-billion movie industry centered in hollywood contributing to the representation of the “Bad Arab”, how can we change that image?

Arabs themselves are changing it. From the recent rebellions to the greatest rebellion of all, the universal culture of hip-hop where voiceless citizens find a voice. After watching an interview with Yassin Salman AKA The Narcicyst, an Iraqi MC living in Canada, about politics, hip-hop and the arab revolution, I found a video on youtube that hollywood could never make. Because it shows the faces of arabs through another lens, as arabs are, as everyone else. Of all shapes and colors, with all types of visuals and a huge diversity of smiles. Like me and you. All Narcicyst free to download here.

Consegue pensar num personagem árabe de um filme de Hollywood com quem simpatize? Um que não seja ou submisso ao ocidental ou que não seja uma mulher oprimida atrás de um véu? Não um personagem que seja odioso ou digno da sua pena, mas alguém que você respeite? … Não?

Nem o escritor Jack Shaheen que escreveu o livro, nem Sut Jhally que dirigiu o documentário Reel Bad Arabs, com o subtítulo elucidativo: Como Hollywood Vilifica um Povo. Em Orientalismo, publicado em 1978, Edward Said fez uma análise pioneira sobre a forma com o Ocidente descreveu o Oriente através da arte e da literatura, em oposição direta a uma audiência Ocidental e de uma forma que denegria os Orientais. Ou seja, como o oriente foi construído como uma idéia … do ocidente. Gandhi disse um dia que a civilização ocidental era uma ótima idéia. A civilização oriental seria uma idéia péssima então. Uma idéia que facilitou, e facilita ainda, que o público ocidental aceite passivamente a colonização do oriente médio. Nos velhos impérios coloniais como nos novos, agora que o estereótipo do árabe é reduzido ao macho terrorista e à fêmea oprimida e sem voz na sociedade. Com a indústria multibilionária de hollywood contribuindo para a representação do “Mau Árabe”, como podemos mudar essa imagem?

Os próprios árabes se encarregam disso. Desde as mais recentes revoltas, à maior revolta de todas, a cultura universal hip-hop onde os cidadãos sem voz encontram um meio de expressão. Depois de ver uma entrevista com Yassin Salman AKA The Narcicyst, um MC iraquiano que vive no Canadá, sobre política, hip-hop e a revolução árabe, encontrei um vídeo (acima) que hollywood nunca podia ter feito. Porque mostra as faces de árabes através de uma outra lente, como os árabes realmente são, como todos os outros. De todos os tamanhos e cores, com todos os tipos de visual e com uma enorme diversidade de sorrisos. Como eu e como vocês.

Toda a música de Narcicyst pode ser baixada aqui.

December according to Saramago / Dezembro segundo Saramago

Current society needs philosophy we need the labor of thinking. José Saramago.

It’s been a december full of Saramago. After the release of the poetic documentary José e Pilar, director Miguel Gonçalves Mendes joined Dedicated Store Lisbon and invited street writers Pariz, Nark, Nomen e A yer, to paint-quote some of the most beautiful sentences coming out of the film. The homage now covers an old pink wall, close to the soon-to-be inaugurated José Saramago Foundation, at Casa dos Bicos in Lisbon.

Casa dos Bicos, Fundação José Saramago

The documentary follows the late José Saramago and his wife Pilar del Rio, during the writing process of The Elephant’s journey, in the early days of the writer’s illness. Beautifully filmed, it takes us on a journey of our own, as we watch José and Pilar travelling the world for book signings and conferences and in the comfort of their own home. We are presented with a poetically portrayed love story that makes right the old saying that behind a great man, there is always a great woman.

Pilar was quite the match for the man with no fear to speak his mind. His last book Cain, written after The Elephant’s journey, would again wrap Saramago in controversy with the church. The story, underlined by a fabulous sense of humor and powerful insights, follows the life of the older son of Adam and Eve, sentenced by god to wander the earth for the rest of his life for killing his brother Abel. Cain sets on a journey through the stories of the genesis book playing the role of devil’s advocate in all stories to prove that the lord is anything but merciful.

Saramago didn’t believe in god. Or in life after death. But this december he’s been more alive than ever. In the walls of Lisbon, in the heart of Pilar who presides to his legacy, and in the minds of his readers who, like him, believe that the world needs a lot more philosophy.

Tem sido um dezembro cheio de Saramago. Depois da estréia do poético documentário José e Pilar, o diretor Miguel Gonçalves Mendes e a Dedicated Store Lisbon convidaram os escritores de rua Pariz, Nark, Nomen e A yer para pintar algumas das mais belas frases do filme. A homenagem cobre agora um velho muro rosa, perto da prestes a ser inaugurada Fundação José Saramago, na Casa do Bicos em Lisboa.

O documentário segue o falecido José Saramago e sua mulher Pilar del Rio, durante o processo da escrita d’A Viagem do Elefante, no inicio da doença do autor. Um filme de grande beleza que nos leva a nós também numa viagem, enquanto acompanhamos José e Pilar pelo mundo, para participarem em lançamentos de livros e conferências, ou no conforto da sua casa. É o retrato de uma história de amor, cheio de poesia, que parece querer provar o velho ditado que atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher.

Pilar era o par perfeito para o homem sem medo de dizer o que pensava. No seu último livro Caim, escrito a seguir a A Viagem do Elefante, Saramago foi mais uma vez envolto em controvérsia com a igreja. A história, sublinhada de um discernimento e sentido de humor fabulosos, segue a vida do filho mais velho de Adão e Eva condenado por deus a vaguear pela terra pelo resto da vida por matar seu irmão Abel. Caim é atirado numa viagem pelo genesis bíblico, representando o papel de advogado do diabo para provar que o senhor é tudo menos misericordioso.

Saramago não acreditava em deus. Ou na vida depois da morte. Mas neste dezembro ele parece estar mais vivo que nunca. Nos muros de Lisboa, no coração de Pilar que preside ao seu legado, e nas mentes de seus leitores, que como ele acreditam, que o mundo precisa de mais filosofia.

For Nuno with Love / Para Nuno com Amor

TRIP, Saulo Araújo

A week ago, luso-brazilian painter Saulo Araújo exhibited his works of over four years ago. The occasion closed a cycle in his life that included the last 4 years in which he produced no art works. He was emotionally blocked after the death of his close friend Nuno, murdered in the streets of Lisbon in December 2006 by a drunk man. All under the “watchful” eyes of the police who didn’t move a finger on a street well known for drug trafficking and prostitution, where the authorities harass but do not protect. Nuno didn’t live in a safe neighborhood, but it was where he could afford a small cosy flat. That night he had cooked for me and Saulo and I saw painted on his wall, the last seven lines of the poem that follows. Hours later, those words would acquire an entirely new meaning and they have stayed with me ever since. This weekend on the 4th anniversary of his passage, Nuno will be on my mind. So, I’m rocketing the words he loved back at him. Up to that cloud, for Nuno, with love.

A semana passada, o pintor luso-brasileiro Saulo Araújo exibiu os trabalhos que executou há mais de quatro anos. A ocasião fechou um ciclo na sua vida onde ele não produziu arte. Estava emocionalmente bloqueado, após a morte do seu querido amigo Nuno, assassinado nas ruas de Lisboa em Dezembro de 2006 por um bêbado. Tudo debaixo dos olhos “vigilantes” da policia, que não mexeu um dedo, numa rua bem conhecido por trafico de drogas e prostituição, onde as autoridades molestam e não protejem. O Nuno não vivia numa rua segura, mas era onde ele podia pagar um pequeno apartamento. Naquela noite, ele tinha cozinhado para mim e para Saulo, e vi escritas na sua parede, as sete últimas linhas do poema que se segue. Horas depois, essas palavras adquiriram um novo significado, e desde então que andam comigo para onde vou. Este fim de semana, no 4º aniversário da sua passagem, o Nuno está comigo. Por isso disparo as palavras que ele amava para o espaço. Para aquela nuvem, para o Nuno, com amor.

Deixa-me sentar numa nuvem                                           Let me sit on a cloud
a mais alta                                                                                   the tallest
e dar pontapés na Lua                                                            and kick the moon
que era como eu devia ter vivido                                     that’s how I should have lived
a vida toda                                                                                  all my life
dar pontapés                                                                              kicking
até sentir um tal cansaço nas pernas                               until my legs were so tired
que elas pudessem voar                                                        that they could fly
mas não é possível                                                                  but it’s not possible
que tenho tonturas e quando                                             I get dizzy and when
olho para baixo                                                                        I look down
vejo sempre planícies muito brancas                             I always see white plains
intermináveis                                                                           endless
povoadas por uma enorme quantidade                        populated by a huge quantity
de sombras                                                                               of shadows
dá-me um cão ou uma bola                                                give me a dog or a ball
ou qualquer coisa que eu possa olhar                           or something else I can look at
dá-me os teus braços exaustivamente                          give me your arms wearisome
longos                                                                                          long
dá-me o sono que me pediste uma vez                          give me the sleep you asked of me
e que transformaste apenas para                                     transformed for your sole
teu prazer                                                                                   pleasure
nos nossos encontros e nos nossos                                in our encounters and in our
dias perdidos e achados logo em                                     days lost and found immediately
seguida                                                                                        after
depois de terem passado                                                     after the cross through
por uma ponte feita por nós dois                                     a bridge made by us
em qualquer sítio me serve                                                any place serves me well
encontrar o teu cabelo                                                         to find your hair
em qualquer lugar me bastam                                           anywhere is enough for me
os teus olhos                                                                             your eyes
porque                                                                                         because
sentado numa nuvem                                                            sitting on a cloud
na lua                                                                                           on the moon
ou em qualquer precipício                                                 or in any precipice
eu sei                                                                                            I know
que as minhas pernas                                                            that my legs
feitas pássaros                                                                          turned birds
voam para ti                                                                              fly to you
e as tonturas que a planície me dá                                  the dizzyness from the plains
são feitas por nós                                                                    is made by us
de propósito                                                                             on purpose
para irritar aqueles que não sabem                                to irritate those who don’t know
subir e descer as montanhas geladas                             to climb and go down icy mountains
são feitas por nós                                                                    made by us
para nunca nos esquecermos                                             so that we never forget
da beleza dum corpo                                                             the beauty of a body
cintilando fulgurantemente                                               shining blazingly
para nunca nos esquecermos                                           so that we never forget
do abraço que nos foi dado                                               the hug we got
por um braço desconhecido                                             by an unknown arm
nós sabemos                                                                            we know
tu e eu                                                                                         you and me
que depois de tudo                                                                that after everything
apenas existem os nossos corpos                                   all there is are our bodies
rutilantes                                                                                  bright
até se perderem no                                                               until they get lost in
limite do olhar                                                                        the limit of gaze
dá-me um cigarro                                                                 give me a cigarette
mesmo que seja só um                                                        even if it is just one
já me basta                                                                                is enough for me
desde que seja dado por ti                                                 as long as it’s given by you
mas não me leves                                                                  but don’t take me
não me tires                                                                             don’t take away
as tonturas que eu teria                                                      the dizziness I would have
que eu terei                                                                              I will have
sempre que penso cá de cima                                           anytime I think from up here
duma altura vertiginosa                                                      from a vertiginous height
onde a própria águia                                                             from where the eagle itself
nada mais é que um minúsculo                                        is nothing more than a tiny
objecto perdido                                                                      lost object
onde a nuvem                                                                          where a cloud
mais alta de todas                                                                   the tallest of all
se agasalha como um cão de caça                                    shelters like a hunting dog
leva-me a recordação                                                           taking a memory
apenas a recordação                                                              just the memory
da vida martelada                                                                   of a hammered life
que em mim tem ficado                                                        that is kept in me
como herança dada há mil e                                               like an inheritance of a thousand
duzentos anos                                                                           and two hundred years ago

deixa que eu fique                                                                   Let me stay
muito afastado                                                                          far away
silencioso                                                                                   silent
e único                                                                                         and unique
no alto daquela nuvem                                                         at the top of that cloud
que escolhi                                                                                 that I chose
ainda antes de existir                                                             before I even existed

Mário Henrique Leiria

Nuno Rafael Eustáquio, 1971-2006 (reproduced after Edward Hopper's influence)

The “F” word / A palavra “F”

It’s not that “F” word. It’s “F” for Feminism, that controversial word that men laugh off as if we have all lived happy ever after the 1960’s. And it’s “F” for feminism … as reinvented by the Guerrilla Girls.

When I learnt that the New York strictly female colective was making an appearance tonight in São Paulo, I couldn’t hold a “F” for fucking cool! I looked online for an all time favorite – The Guerrilla Girls’ Bedside Companion to the History of Western Art, a book full of the colectives’ “re-works” of art. Images of famous male authored pieces that can be viewed in museums around the world, mixed with the Girls’ revolt and dark humour, to comment on the politics of the male dominated art world.

The female artivism of the Guerrilla Girls dates back to 1985, when anonymous artists, Kathe Kollwitz and Frida Kahlo, put on the gorilla mask and formed a guerrilla to avenge women in the arts. For the 25 years that followed, over one hundred women collaborated with the collective signature of the Guerrilla Girls, producing visual work and participating in group actions. Following the portuguese translation, a selection of some of the works by the Guerrilla Girls, a trip down memory lane as my tribute to a quarter century of artivist struggle in the defense of the “F” word. You go girls. “F” them good!

Não é essa palavra “F” que vocês pensam. É “F” de Feminismo, aquele palavrão controverso que os homens zoam como se tivessemos vivido felizes para sempre depois dos anos 60. E é também “F” de feminismo, tal como foi reinventado pelas Guerrilla Girls.

Quando soube que o coletivo estritamente feminino de Nova Iorque ia passar hoje pelo SESC Pinheiros em São Paulo, não hesitei em soltar um “F” de fodaço! Procurei online uma favorita de sempre – The Guerrilla Girls’ Bedside Companion to the History of Western Art (Livro de Bolso da História da Arte Ocidental das Guerrilla Girls), um livro cheio de trabalhos artisticos “reciclados” pelo coletivo. Imagens autoradas por homens famosos que podem ser vistas em museus pelo mundo fora, misturadas com a revolta e o humor negro das Guerrilla Girls, em comentários sobre a politica de um mundo onde o homem domina a arte.

O artivismo feminista das Guerrilla Girls data de 1985, quando as artistas anónimas, Kathe Kollwitz e Frida Kahlo, colocaram uma máscara de gorila e formaram uma guerrilha para vingar as mulheres artistas. Durante os 25 anos que se seguiram, mais de 100 mulheres colaboraram com a assinatura coletiva das Guerrilla Girls, produzindo trabalhos visuais e participando em ações de grupo. Segue uma seleção de trabalhos das Guerrilla Girls, uma viagem pela memória deste coletivo, em jeito de tributo a um quarto de século de luta artivista pela defesa da palavra “F”.