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Take your dirty handcuffs off my naked body / Tira essas algemas sujas do meu corpo nú

Pepper sprayed - for defending the right to be naked / por defender o direito à nudez

Remember Station Beach? Two years on and it’s still attracting the crowds. And just before the Feast of the Flesh, it is now site for independent Carnival street blocks to practice the beats and tunes to parade around the city in less than two weeks. And in what city in the world, where a gathering of hundreds happens on a Saturday while the drums beat on and the beer rolls down, one citizen – at least one citizen – doesn’t get naked?

By the time I got there, it was over. Two men had been arrested for “indecent exposure” – but not to the hot sun. And a crowd had been peppered sprayed for chanting the lyrics of a samba about police brutality – relevant right? – while trying to prevent the arrest of their naked buddies. Meanwhile, the police, who indecently exposes massive batons and guns and chemical sprays on your face, all around town and on a daily basis, can decently grab a peaceful naked man with violence, where there has been no complaint, and spray citizens as they please with harmful chemicals. Isn’t that confusing?

And isn’t it funny that Brazil – famous for sensual mulattas and sex tourism, miniscule bikinis and bikini waxing, big buts shaking frenetically to please the masters and sell the country to tourists – has such a strict code of morality? Can’t you just come up to a man and gently tell him to put on his shorts because some people might be offended? Do you need an S&M situation where big men in uniform can just handcuff a naked person and force them into a car? And what sort of morality do you have when you are empowered to put on a glove and check anyone’s private parts in public, including minors, looking for whatever, as it is seen in the streets of Brazil everyday?

There’s this indecent exposure of agents of the law around town that offends me at a personal level. Can we outlaw them please?

WATCH THE VIDEO OF THE ARREST  playvideo?tv_vid_id=160685   VEJA O VIDEO DAS PRISÕES

Lembram-se da Praia da Estação? Dois anos e continua atraindo multidões. E nas vésperas da Festa da Carne, é agora lugar dos blocos de Carnaval de rua independentes praticarem as batidas e melodias a paradear pela cidade em menos de duas semanas. E em que cidade do mundo, num aglomerado de centenas de pessoas, num sabado marcado a percussão e corrido de muita cerveja, um cidadão – pelo menos um cidadão – não tira a roupa?

Quando cheguei já tinha terminado. Dois homens tinham sido presos por “exposicão indecente” – embora não ao sol quente. E um grupo ainda tinha sido varrido a spray de pimenta por se aproximar cantando a letra de um samba sobre brutalidade policial – olha que relevante – enquanto tentava impedir a prisão de seus companheiros desnudados. Entretanto, a policia, que indecentemente expõe seus batões, armas e sprays quimicos diariamente, pode com “decente” violência agarrar um homem nú, onde não houve denúncia, e jogar quimicos prejudiciais à saúde nos seus cidadãos. É confuso.

E não é engraçado que o Brasil – famoso pelas mulatas sensuais e o turismo sexual, bikinis minusculos e depilações brasileiras, bundas gigantes abanando freneticas para entretenimento dos senhores e para vender o país aos turistas – tenha um código moral tão rigido? Não se pode pedir a um homem para simplesmente pôr os calções caso haja alguém ofendido? É preciso uma situação sado-maso onde homens grandes em uniforme podem algemar um homem nú e força-lo a entrar num carro?  E que espécie de moralidade é essa eles terem poder de chegar, pôr uma luva e revistar as partes privadas de um cidadão, incluindo menores, à procura seja do que for, como se vê diariamente pelas ruas desse Brasil?

Existe uma exposição indecente de agentes da lei na cidade que me ofende pessoalmente. Podemos fazer uma lei para acabar com eles?

Não pode…                                                                                                                                 Can’t …

                                             Não pode.                                                        Can’t.

Ah… mas isso pode!                                                           Ah… yes we can!


The Sluts and the Stoners, a Manifesto for Freedom / As Vagabundas e os Maconheiros, um Manifesto pela Liberdade

[Versão portuguesa em baixo depois dos videos = Portuguese version after the videos below]

It is the year of freedom by all means necessary. The Indignants of Europe and the Revolutionaries of the Middle East have a new bro down here in south america. It’s not that they necessarily want to overthrow the government and refuse to pay its debt. That’s apparently done and Brazil is now in a position of lending money… as if they haven’t done enough for the rest of us during the last 500 years.

Anyway, what the Indignant Freedom Fighters down south want is simply to be left alone. They want to wear a mini skirt and not be raped, they want to grow weed and not be arrested and they want the mayor to stop treating the city as his own private company. And so the Slut Walk and the Freedom March arrived last june 18th in front of city hall to make their voices heard. The first was part of an international march born out of the stupid comments of one canadian police officer, who said women who wear certain types of clothes are inducing rape. The second was born out of local anger after the police repression and violence during the last International Marijuana March, in several brazilian cities.

The videos that follow show the birth of the new movement MANIFESTO which stands for FREEDOM, HEALTH and EDUCATION, as the sole principles that should orient any government, if we absolutely must have one. It  shows the moments when, in front of Belo Horizonte’s City Hall, one city cop isolated acted on his anger and got some pushing and pulling back from the sluts and the stoners, who just won’t take it anymore. And while his city cop friends sprayed some pepper on the crowd – and even on themselves because they are oh so smart – ironically it was the infamous military police who came to break the fight and calm things down.

This blog supports 100% all sluts and stoners, as well as all citizens who believe that freedom doesn’t come through the authority of others. We don’t ask for Freedom, we take it.

É o ano da liberdade por todos os meios necessários. Os Indignados da Europa e os Revolucionários do Oriente Médio ganharam um irmão aqui na america do sul. Não que eles queiram necessariamente a queda do governo e se recusam a pagar as suas dividas. Aparentemente isso já foi feito e o Brasil está numa posição onde pode emprestar dinheiro. Como se já não tivesse feito o suficiente por nós durante os últimos 500 anos.

O que estes indignados lutando por liberdade aqui do sul querem, é simplesmente que deixem eles em paz. Querem usar mini-saia sem ser estuprados, plantar maconha sem ser presos, e também que o prefeito pare de tratar a cidade como se fosse a sua empresa privada. E assim, a Marcha das Vagabundas e a Marcha da Liberdade encontraram-se em frente à Prefeitura de Belo Horizonte no passado dia 18 de junho para fazerem ouvir a sua voz. A primeira fazia parte de uma marcha internacional criada após os comentários estupidos de um policia do Canadá, que disse que mulheres que usam determinado tipo de roupa pedem para ser estupradas. O segundo nasceu da indignação local pela repressão e violência policial durante a última Marcha Internacional da Maconha, em várias cidades brasileiras.

Os videos acima apresentam o novo Movimento MANIFESTO que defende que LIBERDADE, SAÚDE e EDUCAÇÃO, são os principios que deveriam orientar um governo, se é que temos mesmo de ter um. Mostra os momentos quando, em frente da Prefeitura de Belo Horizonte, um policia isolado soltou a fúria e acabou sendo puxado pelas vagabundas e os maconheiros, que já não aguentam mais. E enquanto seus amigos da policia municipal spraiavam pimenta pelos manifestantes – e até neles mesmos de espertos que são – acabou sendo a infame policia militar que acabou com a briga e acalmou as coisas.

Este blogue apoia 100% todas as vagabundas, maconheiros, e demais cidadãos que acreditam que a liberdade não passa pelas autoridades. A liberdade a gente não pede, a gente toma.


Back to the Beach / De Volta à Praia

One year on, beachers goers of the inland mountain town are back to Station Square to defy the city hall’s decree against gatherings at one of the most popular public venues in the city of Belo Horizonte. Yesterday, under a torrid sun, dozens welcomed the water barrel truck and danced to the drums of Trovão de Minas, celebrating one year of humorous defiance against gentrification and the privatization of public spaces. Back to the beach of Belo Horizonte. Because the square is free.

Um ano depois, banhistas de uma cidade do interior voltam à Praia da Estação para desafiar um decreto da prefeitura contra aglomerações numa das praças mais populares de Belo Horizonte. Ontem, debaixo de um sol escaldante, dezenas deram as boas vindas ao caminhão pipa e dançaram ao som do batuque do Trovão de Minas, celebrando um ano de resistência bem humorada contra a gentrificação e a privatização dos espaços públicos. De volta à praia em Belo Horizonte. Porque a praça é livre.

photo by João Perdigão

 


Selling Fish / Vendendo Peixe

“Vendendo Peixe” translates to english as Selling Fish. In portuguese however, what the expression means is a less informal way of saying “to promote yourself” or, as word reference forum clarifies: to sell yourself.

A couple of years ago a group of friends, interested in exploring the city as a democratic space for creativity, organized an event on the last floor of Mercado Novo, an indoor three-storey market with hundreds of traditional shops in the city center of Belo Horizonte, Brazil, which has been largely forgotten by the public.

The huge space, of which only a few shops survive, is one of those once glorious buildings that becomes part of a city’s history. An amazing construction where the outter walls’ opening pattern provides a spectacle of light and shadow dancing around to the sun’s movement along the day.

The agreement between the organizers and the building’s administration was informal but clear: no paint on the walls! And so they brought boards and palisades, textiles and colors and painted the day away in an event everyone still talks about, called Kréu Krio. During that day, no-one saw who did the cool yellow big fish on the bathroom’s wall…

2 years on, the fish is still there

Turns out, the administrator loved the fish. And so, on the next 18th of September, two years on like a “biennal”, urban artists are back to Selling Fish. This time the walls will be colored with ideas and materials brought by any artist that wants to participate. Street or gallery, student or teacher, performer or musician. Experimental art and sounds, for free, celebrating one of the most beautiful and neglected buildings in the center. Brought to you by Urubois and Mixsórdia.

Kreu Krio: the first edition of Vendendo o Peixe, at Mercado Novo, Belo Horizonte, Brazil, 2008

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Dois anos se passaram desde que um grupo de amigos, interessados em explorar a cidade enquanto espaço democrático de criatividade organizaram um evento no último andar do Mercado Novo, um edifício de três pisos com centenas de lojas tradicionais no centro de Belo Horizonte, Brasil, que foi esquecido por grande parte da população.

O enorme espaço, onde sobrevivem apenas algumas lojas, é um desses edifícios outrora gloriosos que entram para a história de uma cidade. Uma belíssima construção onde as aberturas das paredes externas oferecem um espetáculo de luz e sombra, que dança com o movimento do sol ao longo do dia.

O acordo entre os organizadores e a administração foi informal, mas claro: nada de tinta nas paredes e muros! Levaram-se tapumes e telas, textéis e cores, e assim se foi pintando o dia, num evento, ainda hoje muito falado, ao qual se chamou Kréu Krio. Durante o dia, ninguém viu quem pintou o peixão amarelo na parede do banheiro…

Mas o administrador adorou o peixe. E assim, no próximo dia 18 de Setembro, dois anos depois que nem ‘bienal’, artistas urbanos regressam ao Mercado Novo, Vendendo Peixe. Desta vez as paredes vão ser coloridas com ideias e materiais trazidos pelos próprios participantes do evento. Artistas de rua ou de galeria, estudantes e professores, atores e músicos. Artes e sons experimentais, gratuitos, celebrando um dos mais belos e negligenciados edifícios do centro. Organizado pelos Urubois e o guia cultural Mixsórdia.

Peixão - banheiro, terceiro piso, Mercado Novo, centro de Belo Horizonte, Minas Gerais Brasil - a misteriosa "aparição" da edição Kréu Krio 2008, que deu origem ao evento Vendendo Peixe que terá lugar dia 18 de Setembro, 2010 no mesmo local

Kréu Krio 2008


It’s all Swing, it’s all Black, it’s all Afro / É tudo Ginga, é tudo Negro, é tudo Afro

Yesterday, no-one had to pay to watch the still unedited, long and brilliant documentary BH Soul, by local filmmaker and DJ Tomás Amaral.

I’ve wrote about the Soul Quarter in Belo Horizonte and I’ve seen it extend to many uptown clubs and now every Friday night back to center. It’s Black Friday, and a Good Friday too. From the “Rhythm and Poetry” of contemporary black culture under the Santa Tereza viaduct, to the Soul of the older Motown forever crowd just across the street in the new cool hang out place, the Bordello Bar.

BH Soul documents the history of the movement, from the 70’s to its revival in the 21st century. From police repression in bad reputed, black people only bars, such as Máscara Negra (Black Mask), to taking back the streets and mainstream culture. Careless young dancers then, engulfed in wasting life away with work and financial worry later, they meet again in the Soul Quarter and get their youth’s black experience back. And now, older, they took out their fancy suits, the hat, the cane and the shining shoes and back to James Browning this lovely city.

And yes, as many of them observe in their interviews, it’s all the same swing, it’s all black, it’s all afro. The documentary illustrates the idea, combining images of African dance with soul sounds, alternated with images of soul dancers dancing to the sound of African drums. Made me think of Les Blank’s documentary Sworn to the Drum, a tribute to Afro-Cuban percussionist Francisco Aguabella, when art historian Robert Farris Thompson speaks of how we can trace back afro-cuban songs and rhythms along the atlantic coast, down south, up north and across the ocean to Africa.

That’s how the history of black resistance is manifested today throughout the Americas. In ART.

Ontem, ninguém teve de pagar para ver o ainda não editado, longo e brilhante documentário BH Soul, pelo diretor local e DJ Tomás Amaral.

Já escrevi sobre o Quarteirão do Soul em Belo Horizonte e vi-o chegar aos clubes da zona sul e agora de volta ao centro todas as sextas de noite. É uma Sexta Feira Negra, e uma boa sexta feira. Do “Ritmo e Poesia” da cultura negra contemporânea debaixo do viaduto Santa Tereza, ao Soul do pessoal Motown forever do outro lado da rua no novo bar de Belo Horizonte, o Bordello.

BH Soul documenta a história do movimento, dos anos 70 ao seu reavivar no século 21. Desde a repressão policial no mau reputado-só-para-negros bar Máscara Negra, a retomar as ruas e a cultura oficial. Jovens dançarinos de então, emersos depois em deixar passar a vida com as preocupações laborais e financeiras do costume, encontram-se de novo no Quarteirão do Soul recuperando a experiência black da juventude. E hoje, mais velhos, tiraram ainda assim do armário os velhos fatos, o chapéu, a bengala e os sapatos bem engraxados e voltaram a agitar um James Brown pela cidade.

Como muitos observam nas entrevistas, é tudo ginga, é tudo negro, é tudo afro. O documentário ilustra a ideia, combinando imagens de dança africana com sons soul, e imagens de James Brown dançando ao som de um tradicional batuque africano. Lembrei-me do documentário de Les Blank, Sworn to the Drum (prometido ao tambor), um tributo ao percussionista Afro-Cubano Francisco Aguabella, onde o historiador de arte Robert Farris Thompson fala de como se pode rastrear de volta a África os sons e ritmos de Cuba, através do oceano ou ao longo da costa americana, para norte e para sul.

E assim se manifesta hoje neste lugar a história da resistência negra por todo o continente americano; na ARTE.


Brazil: Landlocked Crowds set up a Beach in a Mountain Town / Brasil: Multidões fazem Praia numa Cidade de Montanha

This post was originally published on the GLOBAL VOICES website in English on june 4th 2010, with a Portuguese version added today and reproduced here as well as on the Praça Livre blog. Click here for a previous post about Station Beach published on this blog.
Este post foi originalmente publicado no website GLOBAL VOICES em Inglês a 4 de Junho de 2010, com versão em Português adicionada hoje e reproduzida aqui, assim como no blog Praça Livre. Clique aqui para ler um post anterior neste blog sobre a Praia da Estação.
Quando no final do ano passado, a prefeitura de Belo Horizonte publicou um decreto proibindo eventos de qualquernatureza numa das praças mais populares da cidade, certamente não esperava trazer “vida de praia” a uma cidade nas montanhas do interior brasileiro.

Belo Horizonte é a cidade capital do estado de Minas Gerais na região sudeste do Brasil. Longe da costa, rodeada de montanhas, a cidade tem uma vida cultural vibrante com espaço para todas as sub-culturas e contra-culturas co-existirem e se expressarem em várias ocasiões prazeirosas. Praça da Estação é um dos lugares mais populares proporcionando tais encontros.

Fotografia: João Perdigão

Foi aqui que a cidade nasceu literalmente, pois é aqui o local da velha estação central, que servia de “porto de entrada” para pessoas e materiais durante a construção de Belo Horizonte no final do século XIX. A ferrovia ainda é usada por quem chega das regiões oeste e norte da cidade, e possui uma linha até à cidade de Vitória, capital do estado vizinho Espírito Santo. O velho edifício da estação foi transformado no Museu de Artes e Ofícios trazendo turistas ao centro da cidade. A enorme praça em frente da estação foi renovada nos últimos anos e até possui duas convidativas fontes construídas ao nível do chão da praça para poderem ser desligadas quando de grandes aglomerações. Praça da Estação é também o ponto de partida da Bicicletada de Belo Horizonte, e o principal ponto do popular festival anual Arraial de Belô, assim como outros shows ao vivo e eventos variados que iluminam a vida social dos Belorizontinos. Ou era?

Em Dezembro último, num decreto publicado pelo Prefeito da cidade, a praça ficou condenada a se tornar num espaço vazio com base na necessidade de garantir a segurança pública, manter aglomerações no minimo e preservar o patrimonio público. Imediatamente, a decisão encontrou forte oposição dos cidadãos, para quem a praça é parte essencial da vida cultural da cidade e que, com seus impostos, contribuíram para a sua renovação. Blogueiros discutiram a nova lei, pondo a possibilidade de que o decreto seja um passo no caminho para a gentrificação, em preparação para os jogos olímpicos de 2014.

Um protesto chamado Vá de Branco tomou lugar a 7 de janeiro, juntando cerca de 50 pessoas que procuravam respostas:

Porque a Secretaria de Segurança Patrimonial não propôs um debate com a população sobre a depredação na Praça da Estação?
Porque os eventos foram proibidos na Praça da Estação e não na Praça do Papa?
Porque poucas pessoas entram no Museu de Artes e Ofícios que fica na Praça da Estação?
Qual é o maior espaço central para eventos gratuitos em Belo Horizonte? Quais foram as depredações dos últimos eventos?

Neste encontro ficou assente a necessidade de iniciar um movimento de raízes populares, não partidário e a favor de uma cultura local e gratuita. E das discussões que se seguiram, uma nova ideia nasceu: encontros na praça aos sabádos, com pic-nic, bebidas, bikini e calção, toalhas, chapéus, tambores e guitarras. Em resumo, fazer da praça uma praia na cidade. Uma ideia espalhada pelas redes sociais cibernáuticas e posta em prática por cidadãos locais.

Fotografia: Luiz Navarro

Desde então, a Praia da Estação tornou-se paragem obrigatória nos circuitos rotineiro de sábado dos perambulantes urbanos. Um protesto tranquilo, com humor e no entanto assertivo, um ato de desobediência civil que faz as delícias de vendedores de rua e bares à volta da praça. As fontes, que normalmente são ligadas às 11h e 17h em ponto, permanecem estranhamente fechadas aos sábados, mas os manifestantes ocasionalmente fazem uma coleta e pagam para que um camião-pipa venha dar umas mangueiradas na multidão.

Outras tentativas para agitar a Praia da Estação foram os Eventões, uma chamada à população para trazer “eventos de qualquer natureza” a uma praça onde supostamente estes foram proibidos. Os Eventões juntaram centenas de pessoas e causaram alguma tensão quando a polícia interveio para não deixar o povo instalar sistemas de som. O primeiro Eventão acabou com os “veraneantes” ocupando a estrada e bloqueando o trânsito, até chegar no também popular Viaduto, a apenas alguns quarteirões da praça, bem conhecido como o local do Duelo de MCs de Belo Horizonte todas as sextas à noite.

O blog aberto Praça Livre BH tornou-se mais do que um mero informativo de todos os acontecimentos na praia. O seu foco foi ampliado a temas de gentrificação, despejos e ocupações, oferecendo solidariedade a outros movimentos populares no Brasil, como o dos estudantes de Florianópolis, que lutam por transporte público grátis. E alguns dos veraneantes que protestam relaxadamente ao sábado, levam as coisas bem a sério durante a semana, participando em audiências públicas na Prefeitura. A primeira aconteceu a 24 de março e apesar da ausência de altos membros do poder local – como o Prefeito Márcio Lacerda, o presidente da fundação para a cultura local Taís Pimentel, o secretário de administração local Fernando Cabral, e o presidente da Belotur (companhia de turismo da cidade) Júlio Pires – os manifestantes puderam articular suas preocupações em relação aos usos dados a espaços públicos pagos com dinheiros públicos, à chefe do gabinete regional Ângela Maria Ferreira que representava os mencionados representantes de poder público local. Foram por ela assegurados que a situação era temporária.

Finalmente a 4 de maio, o decreto foi revogado. Mas com uma alteração. Eventos na praça estão agora sujeitos a uma taxa minima de R$9000, o que só permitirá eventos financiados pelo setor privado:

Tal medida materializada pelos decretos 13.960 e 13.961 e editada na ultima terça-feira 4 de maio,  pretende dar aos espaços públicos o mesmo tratamento dos “salões de festa”, pode?

E assim, parece agora que a praça irá receber a copa virtual patrocinada pela coca-cola. Barraquinhas de comes e bebes, banheiros quimicos, écrans gigantes, segurança e as inevitáveis bilhetes pagos tomarão conta da praça, e intensifica-se a discussão à volta dos usos a ela dados pela Prefeitura. Os cidadãos se perguntam agora se é este o futuro de seus espaços públicos: controlar quem tem acesso à praça e cobrar por isso.

Essas intervenções se definem por moldes dos velhos projetos característicos de todas as modernas cidades erguidas sob os pressupostos unitários do capitalismo: limpeza de aspecto fundamentalmente classista, projetos infra-estruturais de custos estratosféricos, restauração de pontos turísticos e outros.

Tais preocupações vão ao encontro dos debates atuais pelo mundo fora relativamente à função dos espaços urbanos. Em anticipação do próximo campeonato do mundo de futebol em 2014, que ocorrerá no Brasil, e os Jogos Olímpicos que terão lugar no Rio de Janeiro em 2016, os cidadãos começam agora a ver os primeiros sinais de uma política pública de gentrificação, importada do exterior como parte da tendência global do poder para aumentar o controle exercido sobre a população mundial. No Brasil, tais preocupações já se fazem sentir e são denunciadas em várias cidades, particularmente no Rio e São Paulo.

Invariavelmente, as olimpíadas dão início a uma blitzkrieg contra pobres e moradores de rua, criando um verdadeiro estado de exceção. Zonas da cidade são praticamente fechadas a quem não tiver ingresso, as ruas são socialmente higienizadas e a polícia passa a agir com truculência animalesca contra os não convidados para a festança de gringo que vamos montar.

Assim, apesar de não haver espaço na praça para a toalha de um amante de praia durante a próxima copa, o Movimento Praça Livre continua a luta para libertar os espaços públicos, e pergunta no seu blog, se o novo decreto cairá como aquele que veio revogar. A resposta assenta em ação popular e a pergunta passa a ser: até onde crescerá este movimento e quantos mais como ele surgirão no Brasil durante a próxima década.


Station Beach / Praia da Estação

Belo Horizonte is a great Brazilian city that doesn’t fit the Brazilian stereotype. The capital of Minas Gerais, an inland state who contributed to a rich north by having its gold and diamond resources exploited to the core, Belo Horizonte doesn’t have any beaches crowded with beautiful girls wearing tiny bikinis. Well… that was until Station Square (Praça da Estação) was turned into Station Beach.

One of the most beautiful squares in the city, home to the museum of arts and crafts, which is housed in the city’s train station, has been spontaneously transformed once a week by the Belo Horizontinos themselves into another exotic Brazilian beach.  

It all started with city law 13798 decreed by Belo Horizonte’s mayor Márcio Lacerda. The square – a great venue for shows and various events, including Belo Horizonte’s Critical Massdeparting point – was shut down to the public by the city’s ‘highest public servant’. Any sort of group assembly is now forbidden by city hall, in a public square paid by tax payer’s money.

Not to worry. If people can’t go to the square, than there’s nothing left to do except … go to the square! So, every saturday now, people from all over the city leave their homes in shorts or bikinis, towel in hand, and settle in the city’s sole beach. The first time, people enjoyed bathing in the square’s fountain, because no-one was expecting them. But in a show-off of childish dictatorial ‘who’s the boss?’ power display, the authorities decided that saturday is now the day when the fountain will always be closed. 

Again, not to worry. At least water is ecologically saved from springing on an empty square. And there are always good souls driving water barrel trucks who now routinely come by and ‘hose’ the crowd. Talk about being creative when it comes to community solidarity…!

While the cops are in stand-by observing, people hang out, chat, get wet, drink, eat, play beachball and even get ocasionally interrupted by the ‘beach’ vendors. Just like in Ipanema or Copacabana.

Below two worth-watching videos documenting Belo Horizonte’s new weekly creative protest event.  

The Manifesto?

WE WANT CULTURE, ENTERTAINMENT AND ART

Translation to some of the chants you will hear below?

1- Hey Lacerda (the mayor) turn on that shit (the fountain)…(Yes BH’s mayor’s name rhymes with shit)

2- Hey Lacerda your decree is shity

3- Come to the beach come, Lacerda

4- Come to the beach come, police

5- Hey police, the beach is delicious

Enjoy the videos and spread the word … BH has now a beach!!!  

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Belo Horizonte é uma grande cidade brasileira que não se encaixa no estereotipo que o estrangeiro tem do brasil. Capital de Minas Gerais, um estado do interior, cuja exploração intensiva de ouro e diamantes contribuiu para a riqueza do norte, Belo Horizonte não tem praias populadas por graciosas mulatas em bikinis reduzidos. Bom… isso foi até a Praça da Estação ser transformada em Praia da Estação.

Uma das mais belas praças da capital do estado, onde a estação de trem da cidade abriga o Museu de Artes e Ofícios, foi transformada espontaneamente uma vez por semana, pelos próprios Belo Horizontinos, em mais uma exótica praia brasileira.

Tudo começou quando o prefeito da cidade ordenou o decreto-lei 13798. A praça, um ótimo local para concertos e eventos vários, incluindo o ponto de partida da Bicicletada,foi declarada pelo ‘maior servente público’ da cidade, encerrada ao público. Qualquer tipo de ajuntamento ficou assim proibido pela prefeitura, numa praça pública paga com o dinheiro dos impostos dos cidadãos.

Sem problemas. Se as pessoas não podem ir à praça, então não há mais nada a fazer senão… ir à praça! Assim, todos os sábados, gente de todos os pontos da cidade sai de casa, de calção ou bikini e toalha na mão, para pegar uma praia no único local possível da cidade. Da primeira vez, até deu para tomar banho na fonte, porque ninguém estava à espera que uma praia surgisse por ali. Mas numa mostra de poder birrento e ditatorial de ‘quem manda aqui sou eu’, as autoridades resolveram que aos sábados a fonte fica agora fechada.

De novo, sem problemas. Pelo menos é ecológico, não se gasta água à toa numa praça vazia. E sempre aparecem umas almas caridosas que dirigem caminhões-pipa e dão umas mangueiradas no pessoal. Isso é que é ser criativamente solidário com a comunidade.

Enquanto a policia observa parada, o pessoal passeia, conversa, molha-se, bebe, come, joga beachball e até chega a ser interrompido pela passagem dos vendedores de praia. Tal qual Ipanema ou Copacabana.        

Acima, dois vídeos documentando o novo protesto criativo semanal da cidade de Belo Horizonte. Vale a pena ver!

O Manifesto?

QUEREMOS CULTURA, DIVERSÃO E ARTE!

Para os tugas que não entenderem o que gritam os brasucas, aqui vai a legenda:

1- Hei Lacerda liga essa merda

2- Hei Lacerda o teu decreto é uma merda

3- Vem pra praia vem, Lacerda

4- Vem pra praia vem, polícia

5- Hei polícia, a praia é uma delícia

Curtam os vídeos e espalhem  a notícia… BH já tem praia!!!