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V for Vagina, not Vendetta / V de Vagina, não de Vingança

"Um pinto duro coloca a mulher no seu lugar" Lilith Adler, 1996.

“You’re on your own.” That’s how Lilith Adler’s statement regarding this image ends. The man in the picture, may be the handsome charming prince that every woman is said to be on the look out for, but he symbolizes how power and sex continue to reflect male dominance in society. It’s present in the image that shocked the conservative art world – because it is not the body of a woman we came accustomed to gaze at in western art  – and it is certainly present in the text accompanying the image. Because, what non-masochistic woman unwilling to submit, either haven’t heard that or something like it?

Lilith Adler died before she completed 40 years old. A young woman, a feminist, whose work was incredibly poignant in addressing the issue of gender power relations. She was only 10 years old when Linda Nochlin published her (in)famous essay “Why Have There Been No Great Women Artists?” addressing historical male dominance in the art world and market. A text that not only inspired countless women artists to address the question of male dominance in all areas, but also set art historians on a quest for female artists neglected by the history of art throughout centuries. Research far from being completed and male dominance far from being erased. You see it in attitudes, you still see it in the art world – including street art world, the street being symbolically male, while women still belong in the domesticity of the home. And mostly you see it in language. And I had a good hint at that very recently.

Less than two weeks ago, I nearly got attacked by a man, who thought it was very rude of me to push him away hard, after he tried to corner me and grab me by the waist. Since I didn’t act with submission like a good girl – or should I say, since I reacted like a woman – I immediately became a thin ugly bitch who was, and I quote, treating him like a dog. As if I treated animals like they were retarded misogynists! I had to tell two other guys before, to remove their hands off me when they approached me thinking they have the right to do so, or that it is charming and irresistible to a woman, that sort of closeness from a total stranger. One of them apologized – good, he might be learning something – the other called me rude. But the third one won the prize of the year (so far) for the “prick looking to straighten me out”. And he might have tried to do so, if I wasn’t immediately surrounded by friends and bar security. I’m thin, he was obese. I’m weaker, he’s stronger.

Documentary “Weapon of War: Confessions of Rape in Congo”, 2009 Documentário “Arma de Guerra: Confissões de Estupro no Congo”, 2009

Absurd. I reacted as I should. As every woman should. Male friends agree. What an idiot that guy. They tell me that. But then I hear the same friends say things like: such and such institutions “opened the legs” to such and such. Language. Opening the legs, an expression in Portuguese, which indicates submission by such to such. You can use it in any sense but the expression is sexually rooted, because, who opens her legs? Men or women?

Language. It is not an accident that “conquest” and “adventure” are expressions used to describe what was in fact western colonization of the world – or a sex affair. Male dominance of land and women. Because women came with the territory. And if I say “fuck that”, ” screw it”, “up yours”, I will be using other expressions, which clearly indicate sexual male dominance and came into common vocabulary to describe something we despise, give no value to and it’s under our power to dominate. Language.

Being a woman who will not be straightened out, who prefers casual relations with male friends who I can respect, who’s not afraid to stroll around town at early hours of the morning, I have to constantly face attitudes that, even if unsaid, denote that I am one of the following:

1) A bitch (language: female dog);

2) Feminazi (language: male’s submission to women because in their ignorance feminism is the opposite of misogyny);

3) Crazy (language: women should not walk by themselves at night, that being the crime rather than a possible assault or rape);

4) Lesbian (language: a women not interested in a particular man, according to that same man).

I must say I took some pleasure in watching Lisbeth’s vendetta on the prick who raped her, in The  Girl With the Dragon Tattoo, adapted from Stieg Larsson‘s first volume of the Millenium series, Men Who Hate Woman (ironically translated to Portuguese as Men Who Don’t Love Women. Language: Hate being different from Not To Love). But I don’t want to focus on a V for Vendetta. I prefer V for Vagina.

So I was interested in learning about V-Day, an initiative by Eve Ensler, author of the Vagina Monologues and a great promoter of the City of Joy a community of women in Kongo where rape victims have been able to heal from gender violence in that country. The Campaign “One Billion Rising” launched by the writer, is a call for women, and men who love them, to dance together wherever they are, until the violence stops. The date has been set to Feb. 14, 2013. Feminism asks for equality and respect between genders. And while women feel threatened when they go for a stroll at any hour of the day or night Feminism is a concept that needs to exist.

And maybe some day, we can call our V, a V for Victory, when we are no longer alone like Lilith Adler reminded us.

“Você está sozinha.” Assim termina o texto da artista Lilith Adler sobre a imagem que se segue. O homem retratado até parece o príncipe encantado com quem supostamente todas as mulheres sonham.

"Um pinto duro coloca a mulher no seu lugar" Lilith Adler, 1996.

Mas ele simboliza como poder e sexo continuam a ser reflexos de uma sociedade dominada pelo macho. A ideia está presente na imagem que chocou o lado conservador do mundo da arte – apenas porque não retrata o corpo da mulher que estamos habituados a observar na arte ocidental –, e está certamente presente no texto que acompanha a imagem. Que mulher não masoquista, que recusa submissão, não ouviu já esta fase ou algo parecido?

Lilith Adler morreu antes dos 40 anos de idade. Uma mulher jovem, com um portfólio aguçado que tratou o tema das relações de poder entre gêneros. Tinha apenas 10 anos quando Linda Nochlin publicou o seu famoso ensaio  “Why Have There Been No Great Women Artists” (Onde Estao as Grandes Mulheres da Arte?) indagando sobre o domínio masculino no mundo e mercado artístico. Um texto inspirador para que inúmeras mulheres artistas tratassem o tema do domínio masculino em todas as áreas da vida, e que lançou os historiadores da arte numa busca pelas artistas negligenciadas na disciplina ao longo dos séculos. Uma pesquisa longe de estar terminada e um domínio masculino longe de ser apagado. Vê-se pelas atitudes, ainda se vê no mundo da arte – incluindo na arte de rua, a rua sendo simbolicamente território do homem, enquanto as mulheres pertencem na esfera doméstica do lar. E principalmente, é notório na linguagem. Como testemunhei recentemente.

Há menos de duas semanas atrás, quase fui atacada por um homem, que achou muito rude da minha parte, o empurrar com força após me fechar num canto e me tentar agarrar pela cintura. Como não fui submissa como uma boa moça – ou seja, reagi como uma mulher – fui imediatamente agredida com os termos de vagabunda, magrela, feiosa que tinha, e cito, tratado o sujeito “que nem cachorro”. Como se eu tratasse os animais do mesmo jeito que trato um misoginista retardado! Antes já havia dito a outros dois machos que tirassem a mão de mim quando chegaram se achando no direito de me agarrar, ou pensando que é charmoso e irresistível para uma mulher esse tipo de proximidade vinda de um completo desconhecido. Um pediu desculpa – que bom, talvez tenha aprendido alguma coisa -, o outro disse que eu era grossa. Mas foi o terceiro que ganhou o premio do ano (ate agora) de “maior escroto querendo me colocar no lugar”. E talvez tivesse tentando se eu não fosse imediatamente rodeada de amigos (e amigas) e pelos seguranças do bar. Eu sou magra, ele é obeso. Eu sou mais fraca, ele é mais forte.

After-rape scene from “The Girl With The Dragon Tattoo”, 2011 Cena pós-estupro em “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres”, 2011

Um absurdo. Eu reagi como devia. Como qualquer mulher devia. Os amigos homens concordam. Que idiota aquele tipo – eles disseram. Mas depois ouço os mesmo amigos em conversa dizerem coisas do tipo: tal instituição abriu as pernas para não sei que tal… Linguagem. Abrir as pernas, uma expressão que indica submissão de algo ou alguém a algo ou alguém. Pode ser usada em qualquer sentido, mas tem raízes sexuais porque afinal, quem abre as pernas? Homens ou mulheres?

Linguagem. Não é a toa que “conquista” e “aventura” são expressões usadas para descrever o que de fato foi a colonização ocidental do mundo – ou uma ligação sexual. Domínio masculino sobre terra e fêmeas. Porque as mulheres vinham com o território. E se eu disser “foda-se” ou “tomar no cú” estarei usando expressões, que claramente indicam domínio sexual masculino e que entraram na gíria para descrever algo que se despreza, não se dá valor, que está sob o nosso poder de dominar. Linguagem.

Sendo uma mulher que recusa ser colocada “no seu lugar”, que prefere relações casuais com homens que consigo respeitar e que não tem medo de passear de madrugada, sou constantemente confrontada com atitudes que, se não expressadas verbalmente, denotam um dos seguintes rótulos:

1) Vagabunda (linguagem: puta, cachorra);

2) Feminazi (linguagem: submissão do homem a mulher, porque na sua ignorância eles acham que feminismo é o oposto de machismo);

3) Louca (linguagem: as mulheres não devem andar por aí de madrugada como se fosse esse o crime, em vez do potencial de agressão e estupro);

4) Lésbica (linguagem: a mulher que não esta interessada num homem, de acordo com esse mesmo homem).

Devo dizer que tirei algum prazer em ver a vingança de Lisbeth com o escroto que a estuprou, em Os Homens Que Não Amam as Mulheres (The Girl With the Dragon Tattoo), adaptado do primeiro volume da serie Millenium do autor sueco Stieg Larsson, que no original se chama Os Homens Que Odeiam a Mulheres (Linguagem: Odiar é diferente de Não Amar e no entanto a versão portuguesa prefere um tom mais leve). Mas não quero me focar num V de Vendetta. Prefiro um V de Vagina.

Assim, fiquei muito interessada em saber que se aproxima o Dia V, uma iniciativa de Eve Ensler, autora dos Monólogos da Vagina e grande promotora da City of Joy (Cidade da Alegria), uma comunidade de mulheres no Congo, onde vitimas de estupro se reúnem para se ajudarem na recuperação de traumas relacionados com a violência contra as mulheres naquele país. A Campanha “One Billion Rising” (Um Bilhão Se Erguendo), lançada pela autora, é uma chamada a todas as mulheres e os homens que as amam, para dançarem juntos, onde quer que estejam, até a violência acabar, e a data foi marcada para o próximo dia 14 de fevereiro de 2013. Feminismo pede igualdade e respeito entre gêneros. E enquanto as mulheres se sentirem ameaçadas por resolverem dar uma caminhada seja de dia, seja de noite, Feminismo é um conceito que precisa de existir.

Talvez um dia a gente possa chamar o nosso V, V de Vitoria. Quando já não estivermos sozinhas, como nos lembrou Lilith Adler.

Artists “Occupy” Mission to Protest Violence Against Women, San Francisco, 2011 Artistas "Ocupam" o bairro Mission para Protestar a Violência Contra as Mulheres, San Francisco, 2011