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V for Vagina, not Vendetta / V de Vagina, não de Vingança

"Um pinto duro coloca a mulher no seu lugar" Lilith Adler, 1996.

“You’re on your own.” That’s how Lilith Adler’s statement regarding this image ends. The man in the picture, may be the handsome charming prince that every woman is said to be on the look out for, but he symbolizes how power and sex continue to reflect male dominance in society. It’s present in the image that shocked the conservative art world – because it is not the body of a woman we came accustomed to gaze at in western art  – and it is certainly present in the text accompanying the image. Because, what non-masochistic woman unwilling to submit, either haven’t heard that or something like it?

Lilith Adler died before she completed 40 years old. A young woman, a feminist, whose work was incredibly poignant in addressing the issue of gender power relations. She was only 10 years old when Linda Nochlin published her (in)famous essay “Why Have There Been No Great Women Artists?” addressing historical male dominance in the art world and market. A text that not only inspired countless women artists to address the question of male dominance in all areas, but also set art historians on a quest for female artists neglected by the history of art throughout centuries. Research far from being completed and male dominance far from being erased. You see it in attitudes, you still see it in the art world – including street art world, the street being symbolically male, while women still belong in the domesticity of the home. And mostly you see it in language. And I had a good hint at that very recently.

Less than two weeks ago, I nearly got attacked by a man, who thought it was very rude of me to push him away hard, after he tried to corner me and grab me by the waist. Since I didn’t act with submission like a good girl – or should I say, since I reacted like a woman – I immediately became a thin ugly bitch who was, and I quote, treating him like a dog. As if I treated animals like they were retarded misogynists! I had to tell two other guys before, to remove their hands off me when they approached me thinking they have the right to do so, or that it is charming and irresistible to a woman, that sort of closeness from a total stranger. One of them apologized – good, he might be learning something – the other called me rude. But the third one won the prize of the year (so far) for the “prick looking to straighten me out”. And he might have tried to do so, if I wasn’t immediately surrounded by friends and bar security. I’m thin, he was obese. I’m weaker, he’s stronger.

Documentary “Weapon of War: Confessions of Rape in Congo”, 2009 Documentário “Arma de Guerra: Confissões de Estupro no Congo”, 2009

Absurd. I reacted as I should. As every woman should. Male friends agree. What an idiot that guy. They tell me that. But then I hear the same friends say things like: such and such institutions “opened the legs” to such and such. Language. Opening the legs, an expression in Portuguese, which indicates submission by such to such. You can use it in any sense but the expression is sexually rooted, because, who opens her legs? Men or women?

Language. It is not an accident that “conquest” and “adventure” are expressions used to describe what was in fact western colonization of the world – or a sex affair. Male dominance of land and women. Because women came with the territory. And if I say “fuck that”, ” screw it”, “up yours”, I will be using other expressions, which clearly indicate sexual male dominance and came into common vocabulary to describe something we despise, give no value to and it’s under our power to dominate. Language.

Being a woman who will not be straightened out, who prefers casual relations with male friends who I can respect, who’s not afraid to stroll around town at early hours of the morning, I have to constantly face attitudes that, even if unsaid, denote that I am one of the following:

1) A bitch (language: female dog);

2) Feminazi (language: male’s submission to women because in their ignorance feminism is the opposite of misogyny);

3) Crazy (language: women should not walk by themselves at night, that being the crime rather than a possible assault or rape);

4) Lesbian (language: a women not interested in a particular man, according to that same man).

I must say I took some pleasure in watching Lisbeth’s vendetta on the prick who raped her, in The  Girl With the Dragon Tattoo, adapted from Stieg Larsson‘s first volume of the Millenium series, Men Who Hate Woman (ironically translated to Portuguese as Men Who Don’t Love Women. Language: Hate being different from Not To Love). But I don’t want to focus on a V for Vendetta. I prefer V for Vagina.

So I was interested in learning about V-Day, an initiative by Eve Ensler, author of the Vagina Monologues and a great promoter of the City of Joy a community of women in Kongo where rape victims have been able to heal from gender violence in that country. The Campaign “One Billion Rising” launched by the writer, is a call for women, and men who love them, to dance together wherever they are, until the violence stops. The date has been set to Feb. 14, 2013. Feminism asks for equality and respect between genders. And while women feel threatened when they go for a stroll at any hour of the day or night Feminism is a concept that needs to exist.

And maybe some day, we can call our V, a V for Victory, when we are no longer alone like Lilith Adler reminded us.

“Você está sozinha.” Assim termina o texto da artista Lilith Adler sobre a imagem que se segue. O homem retratado até parece o príncipe encantado com quem supostamente todas as mulheres sonham.

"Um pinto duro coloca a mulher no seu lugar" Lilith Adler, 1996.

Mas ele simboliza como poder e sexo continuam a ser reflexos de uma sociedade dominada pelo macho. A ideia está presente na imagem que chocou o lado conservador do mundo da arte – apenas porque não retrata o corpo da mulher que estamos habituados a observar na arte ocidental –, e está certamente presente no texto que acompanha a imagem. Que mulher não masoquista, que recusa submissão, não ouviu já esta fase ou algo parecido?

Lilith Adler morreu antes dos 40 anos de idade. Uma mulher jovem, com um portfólio aguçado que tratou o tema das relações de poder entre gêneros. Tinha apenas 10 anos quando Linda Nochlin publicou o seu famoso ensaio  “Why Have There Been No Great Women Artists” (Onde Estao as Grandes Mulheres da Arte?) indagando sobre o domínio masculino no mundo e mercado artístico. Um texto inspirador para que inúmeras mulheres artistas tratassem o tema do domínio masculino em todas as áreas da vida, e que lançou os historiadores da arte numa busca pelas artistas negligenciadas na disciplina ao longo dos séculos. Uma pesquisa longe de estar terminada e um domínio masculino longe de ser apagado. Vê-se pelas atitudes, ainda se vê no mundo da arte – incluindo na arte de rua, a rua sendo simbolicamente território do homem, enquanto as mulheres pertencem na esfera doméstica do lar. E principalmente, é notório na linguagem. Como testemunhei recentemente.

Há menos de duas semanas atrás, quase fui atacada por um homem, que achou muito rude da minha parte, o empurrar com força após me fechar num canto e me tentar agarrar pela cintura. Como não fui submissa como uma boa moça – ou seja, reagi como uma mulher – fui imediatamente agredida com os termos de vagabunda, magrela, feiosa que tinha, e cito, tratado o sujeito “que nem cachorro”. Como se eu tratasse os animais do mesmo jeito que trato um misoginista retardado! Antes já havia dito a outros dois machos que tirassem a mão de mim quando chegaram se achando no direito de me agarrar, ou pensando que é charmoso e irresistível para uma mulher esse tipo de proximidade vinda de um completo desconhecido. Um pediu desculpa – que bom, talvez tenha aprendido alguma coisa -, o outro disse que eu era grossa. Mas foi o terceiro que ganhou o premio do ano (ate agora) de “maior escroto querendo me colocar no lugar”. E talvez tivesse tentando se eu não fosse imediatamente rodeada de amigos (e amigas) e pelos seguranças do bar. Eu sou magra, ele é obeso. Eu sou mais fraca, ele é mais forte.

After-rape scene from “The Girl With The Dragon Tattoo”, 2011 Cena pós-estupro em “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres”, 2011

Um absurdo. Eu reagi como devia. Como qualquer mulher devia. Os amigos homens concordam. Que idiota aquele tipo – eles disseram. Mas depois ouço os mesmo amigos em conversa dizerem coisas do tipo: tal instituição abriu as pernas para não sei que tal… Linguagem. Abrir as pernas, uma expressão que indica submissão de algo ou alguém a algo ou alguém. Pode ser usada em qualquer sentido, mas tem raízes sexuais porque afinal, quem abre as pernas? Homens ou mulheres?

Linguagem. Não é a toa que “conquista” e “aventura” são expressões usadas para descrever o que de fato foi a colonização ocidental do mundo – ou uma ligação sexual. Domínio masculino sobre terra e fêmeas. Porque as mulheres vinham com o território. E se eu disser “foda-se” ou “tomar no cú” estarei usando expressões, que claramente indicam domínio sexual masculino e que entraram na gíria para descrever algo que se despreza, não se dá valor, que está sob o nosso poder de dominar. Linguagem.

Sendo uma mulher que recusa ser colocada “no seu lugar”, que prefere relações casuais com homens que consigo respeitar e que não tem medo de passear de madrugada, sou constantemente confrontada com atitudes que, se não expressadas verbalmente, denotam um dos seguintes rótulos:

1) Vagabunda (linguagem: puta, cachorra);

2) Feminazi (linguagem: submissão do homem a mulher, porque na sua ignorância eles acham que feminismo é o oposto de machismo);

3) Louca (linguagem: as mulheres não devem andar por aí de madrugada como se fosse esse o crime, em vez do potencial de agressão e estupro);

4) Lésbica (linguagem: a mulher que não esta interessada num homem, de acordo com esse mesmo homem).

Devo dizer que tirei algum prazer em ver a vingança de Lisbeth com o escroto que a estuprou, em Os Homens Que Não Amam as Mulheres (The Girl With the Dragon Tattoo), adaptado do primeiro volume da serie Millenium do autor sueco Stieg Larsson, que no original se chama Os Homens Que Odeiam a Mulheres (Linguagem: Odiar é diferente de Não Amar e no entanto a versão portuguesa prefere um tom mais leve). Mas não quero me focar num V de Vendetta. Prefiro um V de Vagina.

Assim, fiquei muito interessada em saber que se aproxima o Dia V, uma iniciativa de Eve Ensler, autora dos Monólogos da Vagina e grande promotora da City of Joy (Cidade da Alegria), uma comunidade de mulheres no Congo, onde vitimas de estupro se reúnem para se ajudarem na recuperação de traumas relacionados com a violência contra as mulheres naquele país. A Campanha “One Billion Rising” (Um Bilhão Se Erguendo), lançada pela autora, é uma chamada a todas as mulheres e os homens que as amam, para dançarem juntos, onde quer que estejam, até a violência acabar, e a data foi marcada para o próximo dia 14 de fevereiro de 2013. Feminismo pede igualdade e respeito entre gêneros. E enquanto as mulheres se sentirem ameaçadas por resolverem dar uma caminhada seja de dia, seja de noite, Feminismo é um conceito que precisa de existir.

Talvez um dia a gente possa chamar o nosso V, V de Vitoria. Quando já não estivermos sozinhas, como nos lembrou Lilith Adler.

Artists “Occupy” Mission to Protest Violence Against Women, San Francisco, 2011 Artistas "Ocupam" o bairro Mission para Protestar a Violência Contra as Mulheres, San Francisco, 2011


Moms: the world is LGBTT / Mães: o mundo é LGBTT

I’d rather be black than gay because when you’re black you don’t have to tell your mother.
Charles Pierce
1980

From a long list of famous LGBTT quotes, this one made me laugh the loudest. It reminds me of a story I heard of someone’s friend who didn’t attend pride parade for being afraid that his mother saw him on TV. Or of another gay boy I met who said his mother could never suspect or she would just die, while I looked at his gesturing and wondered how can she not know darling? Society at its worse: old-fashioned, fake-moralizer, screwed-up, sexually repressed and an interference in people’s private lifestyle choices. And I bet that all those mothers would not have one bit a problem of acceptance if it wasn’t for fear of what the neighbours may think.

Speaking of neighbours, Argentina has just legalized gay weddings with full rights to parenthood and adoption. That is proper of a civilized society who finally deviated from a colonial christian mentality, recognized that all citizens are equal and that sexual orientation is a private choice. Argentinian mothers can now raise their heads and be proud of their LGBTT children. That’s what Pride is: not being ashamed. SIN VERGUENZA! And Brazil? When will Brazilian citizens be granted equal rigths and when will Brazilian parents be proud of their children’s rather then ashamed by the neighbours?

I recently wrote about misogyny, a cancer in society that affects women of all colors and social strata, but that a deeper reflection leads to the obvious conclusion that it affects equally the homo, bi or trans sexuality of all citizens. Both misogyny and LGBT phobia are related cancers produced by a society that was constructed on patriarchal praxis. So, mothers of the world, the fight against misogyny is the fight for LGBTT rights. Your LGBTT children are not enemy. That’s the hand that hits your face and the hipocritical society that doesn’t create the conditions to protect you from such violence.

Although… judging from some of my LGBTT friends around the planet, and the boys in the photo above, it may be that South Park‘s Mr. Garrison was right and that in fact:

[…] well, gay people are EVIL, evil right down to their cold black hearts which pump not blood like yours or mine, but rather a thick, vomitous oil that oozes through their rotten veins and clots in their pea-sized brains which becomes the cause of their Nazi-esque patterns of violent behavior. Do you understand?

Well … anyway my new favorite is more “tolerant” of “deviated” sexual behaviour and also protective of animal rights. It comes from the brilliant Duchess of Jermyn Street, Rosa Lewis, owner of the Cavendish Hotel at the turn of the century and according to rumors, lover of King Edward VII. An independent woman for whom:

It doesn’t matter what you do in the bedroom as long as you don’t do it in the street and frighten the horses.

My point precisely. You just can’t frighten the horses. Your mom you can! Sí se puede!

Prefiro ser negro a ser gay porque quando se é negro não tem de se contar à nossa mãe.
Charles Pierce
1980

De uma longa lista de citações LGBTT famosas, esta foi a que mais me fez rir. Lembra-me uma história que ouvi a respeito do amigo de alguém que não ia na parada do orgulho gay porque tinha medo que a mãe o visse na televião. Ou a história de outro moço gay que me disse que sua mãe não podia suspeitar nunca porque ela simplesmente morreria, enquanto eu olhava suas gesticulações e pensava mas como pode ela já não saber querido? É a sociedade no seu melhor: antiquada, pregando falsos valores, fodida mas sexualmente reprimida e uma interferência nas escolhas particulares de cada um. E aposto que todas essas mães não teriam o mínimo problema de aceitação se não fosse medo do que diriam os vizinhos.

Falando de vizinhos, a Argentina acabou de legalizar o casamento gay com direitos a paternidade e adoção. Isso é que é próprio de uma sociedade civilizada que finalmente desviou da mentalidade colonial cristã, reconheceu que todos os cidadãos são iguais e que a orientação sexual é uma escolha privada. As mães argentinas podem levantar a cabeça e ter orgulho em seus filhos e filhas LGBTT. É isso que é o orgulho: não ter vergonha. SIN VERGUENZA! E o Brasil? Quando será que os cidadãos brasileiros têm direitos iguais e quando podem os pais brasileiros se orgulhar em vez de sentir a vergonha dos vizinhos?

Escrevi recentemente sobre machismo, um cancer na sociedade que afeta mulheres de todas as cores e classes sociais, mas que uma reflexão mais profunda leva à conclusão que afeta igualmente a sexualidade homo, bi or trans de todos os cidadãos. Tanto o machismo quanto a fobia LGBTT são canceres conetados e produzidos por uma sociedade que foi construída sobre uma praxis patriarcal. Por isso, mães do mundo, a luta contra o machismo é a luta pelos direitos LGBTT. Não são os filhos LGBTT que são o inimigo. O inimigo é a mão que agride a sua face e a sociedade hipócrita que não cria condições para proteger as vítimas dessa violência.

No entanto… julgando por alguns de meus amigos LGBTT por esse mundo fora, e também pelos rapazes conquistadores da foto do topo, pode ser que o Sr. Garrison do South Park estivesse certo e que de fato:

[…] bom, os gays são do DEMÓNIO, demoníacos até ao fundinho de seus corações negros e frios que bombam, não sangue como você e eu, mas antes um denso oléo parecendo vómito que circula em suas veias podres e coagula seus cérebros do tamanho de uma ervilha o que se torna na causa dos seus esquemas nazis de comportamento violento. Entenderam?

Bom … de qualquer forma a minha nova favorita é mais “tolerante” de comportamentos sexuais “desviados” e também protege os direitos dos animais. Vem da brilhante Duquesa de Jermyn Street, Rosa Lewis, dona do Hotel Cavendish na virada do século e segundo rumores amante do rei Eduardo VII. Uma mulher independente para quem:

Não importa o que você faz no quarto desde que não faça o mesmo na rua e assuste os cavalos.

O meu ponto precisamente. Só é preciso não assustar os cavalos. A mãe pode! Sí se puede!




The biggest lie / A maior mentira

Save the Whale, Greenpeace

 

ARThropophagyas completed 1 year yesterday. On April Fools Day of all days! For portuguese speakers, it literally translates to The Day of Lies. So, on my blog’s first anniversary I decided to talk about a very inconvenient truth.

Don’t get me wrong. I have nothing against lying. You have to lie to the government, the police, your boss, your parents, boyfriends and girlfriends, wives and husbands. Your level of lying is directly connected to the preassure or expectations others put on you. It’s not entirely your fault, although you might feel guilty and unworthy of heaven. In a capitalistic society operated by strict authoritarian rules masked as democracy, and religiously based so-called moral values, you learn how to lie in order to get what you want or avoid any problems right? … If you deny it, you will be lying… To lie becomes a natural instinct, whether you’re telling the homeless you don’t have any change to spare, conspiring ways to work around your taxes, or telling your lover you were just talking to your boss when in fact it was the hot blond from last night on the other side of the line. You tell yourself you lied because that homeless person is probably just lazy, the government is certainly corrupt and your lover might get furious and break your stereo. In reality, if there were no homeless, taxes or possessive relationships, then you wouldn’t have to lie right? You lie as part of a social learning process, where repetition of negative reactions to truth will teach you that next time you should lie. There is a practical point to a lie so, should you feel guilty when just as you lie, others lie to you and that is simply how this society operates? Is there a right answer to this question?

Telling the truth, your truth, is always a bigger challenge. And under some circunstances, it can be tricky… If you disagree with something highly controversial and decide to speak up for a truth outside the mainstream, be prepared for opposition, cold hard looks and defensive stances. It gets tiring but just like sometimes you have to lie, sometimes you simply feel that you have to tell the truth. Even when others resist you because they prefer to lie to themselves. The biggest lies are those. The ones we tell ourselves. 

In a blog that uses taste and tasty metaphors to speak of art, culture and society, it was about time I addressed the topic of food. My truth, from a not so popular perspective. Being a meat eater, from birth, I have greatly decreased my meat consumption in the last few years, particularly at home where I mostly consume fruits and veggies but also animal derived foods such as cheese, eggs and butter … I can see all vegans frowning. In the beginning, such descrease in meat consumption did not come exclusively out of concern for animals, but out of the conviction that we do not need to consume that much animal meat. As I started to adopt a different diet I gradually came to dislike meat which was perhaps a little enhanced by a growing awareness of the ways in which our meals are ‘prepared’ for us. Still, I haven’t reached the point where I will become a whole heartedly vegetarian, which I justify on my lack of development as a human being, and I’m light years away from the type of worldview it takes to become a vegan. I won’t defend myself, there’s no defense, no guilt, that’s just me.

Recently I watched two excellent documentaries. Food Inc. and Earthlings. The first focuses on the ways in which the north american meat and cereal markets operate… well, the world market in fact. I’ve briefly mentioned that subject on this blog when I wrote about the swine vaccine. Food Inc. lost the best documentary oscar to The Cove, another film reporting human cruelty towards animals. But it was Earthlings that I found particularly troubling. It was not just the many scenes during which I kept my eyes closed – something that did not stop me from hearing the screams of animals being slaughtered so we could consume them in the confort of our homes lying to ourselves about the ways in which their flesh lands on our plates, on our clothes, our make-up, our medicine, our treatments. It also did not prevent me from hearing the gutural shouts of human beings inflicting pain on those animals, in a show off of senseless manly and technologically civilized human cruelty, this by a species, my species, convinced of its superiority over other earthlings.

And that was for me the most disturbing aspect of this documentary and the philosophy behind it. See, I had thought about this many times before. It’s only according to human beings that human beings are superior. No-one else ever said that about human beings. We simply declared ourselves superior because we control the environment and we developed technology. But throw us unarmed in front of a lion and let’s see who’s superior. We also somehow have declared ourselves the only conscious beings, meaning only us are aware of ourselves, our past, present and future while others animals are not. But how do we really know that? In an universe full of possibilities how many types of conscious and intelligent life are possible? In fact, it may even be that animals are a lot more intelligent than us and that we are not evolving but devolving…

Sure we have developed in terms of technology, but what kind of development comes accompanied by an increasing disrespect for other earthlings and the environment around us? To this idea that had often crossed my mind, this documentary gave a name: Speciecism. Like racism favours one race over another and sexism one gender, so speciecism favours one species over another. And like in post colonial theories like Orientalism where Edward Said lays out how the West constructed an image of the East through art and literature, so have Speciecism constructed an image of the animal as unintelligent, deprived of emotions, oblivious to its caging, enprisionment, actually happy living in our zoos, entertaining us in our circus, earning us money in our races, fights, breed contests. And when the animal rebels, attacking the public or its trainer, we say it’s its ‘wild’ nature. It’s never us, it’s always them, the others. So it is in racism or sexism.

The truth is that we don’t want to face … the truth. We prefer to hide our head in the sand like the ostrich in defensive justifications because we have yet to solve the problem of how we can consume the right amount of food our body needs, in ways that are not damaging to the environment and our fellow earthlings. Below a documentary providing real food for thought for those with the courage to face the truth. And maybe change.

Further below, after the portuguese translation, photographs I picked to show how fabulous, and similar to humans, are the beings sharing this beautiful blue-green planet with us.

ARThropophagyas completou ontem 1 ano. No dia das mentiras. Em inglês é April Fools Day que é o mesmo que dizer Dia dos Otários. Assim no dia das mentiras, aniversário do meu blog, decidi escrever uma verdade muito inconveniente para os otários dos humanos.

Não me interpretem mal. Nada tenho contra a mentira. A gente tem de mentir ao governo, à policia, ao patrão, aos pais, namorados e namoradas, mulheres e maridos. O grau da nossa mentira está diretamente ligado à pressão e expectativas que os outros põe em nós. Apesar disso, por vezes nos sentimos culpados ou desmerecedores do reino dos céus. Numa sociedade capitalista que opera através de leis autoritárias mascaradas de democracia, e valores apregoados de morais baseados em crenças religiosas, a gente aprende a mentir para conseguir o que quer evitando demais problemas certo?… Se negar você vai estar mentindo… Mentir tornou-se um instinto natural, quer a gente diga ao sem teto que não tem dinheiro trocado, conspire formas para pagar menos impostos, ou diga à amante que era o patrão no telefone quando quem realmente estava do outro lado da linha era a loura da noite passada. Você repete para você mesmo que mentiu porque aquele sem teto era provavelmente um preguiçoso que não quer trabalhar, o governo é certamente corrupto e a amante pode ficar furiosa e quebrar seu som. Na realidade se não houvesse sem tetos, impostos ou relações possessivas, a gente não teria de mentir certo? A gente mente a partir de um processo de aprendizado social, quando a repetição de reações negativas à verdade que falamos nos ensina que da próxima vez o melhor é mentir. E assim aprendemos essa ‘arte’, para sermos ‘bem-educados’, politicamente corretos e para evitar perguntas ou problemas. Há um objetivo prático na mentira. Devemos ainda assim nos sentir culpados quando mentimos, tal como outros nos mentem e esse é simplesmente o modo como opera a nossa sociedade? Existe uma resposta certa para esta pergunta?

Dizer a verdade, a nossa verdade, é sempre um desafio maior. E nalgumas circunstancias, pode ser complicado. Se você discorda de algo controverso e decide falar a sua verdade desviada das correntes de pensamento normais, prepare-se para forte oposição, olhares de aço e atitudes defensivas. É cansativo, mas tal como por vezes a gente tem de mentir, outras a gente sente que tem mesmo de falar a verdade. Mesmo que os outros resistam porque preferem mentir a si próprios. As maiores mentiras são essas. As que contamos a nós próprios.

Num blog que usa paladar e metáforas deliciosas para falar de arte, cultura e sociedade, já era tempo de falar sobre o assunto … comida. A minha verdade de uma perspectiva pouco popular. Sendo uma consumidora de carne desde criança, reduzi muito o consumo nos últimos anos, particularmente em casa onde como principalmente frutas, vegetais e alimentos derivados de animais como queijo, ovos e manteiga … já posso ver os veganos franzindo a testa. No inicio, tal redução não se deveu exclusivamente a uma preocupação com os animais, mas da convicção que não precisamos de tanta carne animal. À medida que adotei uma dieta diferente, aconteceu ir deixando de apreciar carne, o que talvez tenha também sido influenciado por uma conscientização cada vez maior das formas crueis como as nossas refeições são ‘preparadas’ antes de chegar na nossa mesa. Ainda assim não cheguei ao ponto de me tornar completamente vegetariana, algo que atribuo ao meu pouco desenvolvimento enquanto ser humano, e estou a anos luz da mentalidade necessária a me tornar vegana. Não me vou defender, não existe defesa possível, mas também não existe culpa, sou assim.

Recentemente vi dois excelentes documentários. Food Inc. e Earthlings (Terráqueos). O primeiro foca na indústria da carne norte-americana… bom, de fato mundial, algo que mencionei brevemente neste blog quando escrevi sobre a vacina suína. Food Inc. perdeu o Oscar de melhor documentário para The Cove,outro filme relatando a crueldade humana com os animais. Mas foi Terráqueos que mais me perturbou. Não foram apenas as várias cenas durante as quais mantive meus olhos fechados – algo que não me impediu de ouvir os animais berrarem enquanto são chacinados para que os possamos consumir no conforto das nossas casas mentindo a nós próprios sobre as formas como sua carne acaba em nossos pratos, nas nossas roupas, maquiagem, medicamentos e tratamentos médicos. E também não me impediu de ouvir os gritos guturais de seres humanos  agredindo aqueles animais num espetáculo de crueldade masculinizada e supostamente tecnologicamente civilizada, isto vindo da espécie humana, a minha espécie, convencida da sua superioridade sobre todos os outros terráqueos.

Esse foi para mim o aspeto mais perturbante deste documentário e da filosofia nele apresentada. Já havia pensado na questão inúmeras vezes: é apenas de acordo com o ser humano, que o ser humano é superior. Ninguém nunca, além do ser humano, disse isso… sobre o ser humano. Nós nos declarámos assim, simplesmente porque controlamos o meio ambiente e desenvolvemos tecnologia. Mas atirem-nos sem armas em frente de um leão e veremos quem é superior. Também nos declarámos os únicos seres conscientes de nós próprios, nosso passado, presente e futuro ao contrário de outros animais. Mas como sabemos isso realmente? Num universo cheio de possibilidades quantos tipos de consciência e vida inteligente são possíveis? Na realidade pode até ser que os animais sejam muito mais inteligentes que a gente e que nós, ao contrário do que pensamos, não estejamos a evoluir mas a devoluir…

Certamente nos desenvolvemos tecnologicamente, mas que tipo de desenvolvimento vem acompanhado de um desrespeito crescente por outros terráqueos e pelo ambiente à nossa volta? A esta idéia que com frequência já cruzou minha mente, este documentário deu um nome: Espécismo. Como o racismo favorece uma raça sobre a outra, e o sexismo um gênero, também o espécismo favorece uma espécie sobre a outra. E como em teorias pós-coloniais como Orientalismo onde Edward Said demonstrou como o Ocidente construiu uma imagem do Oriente através da arte e da literatura, também o Espécismo contruiu uma imagem dos animais como sendo desprovidos de inteligência, emoções, alheio a sua falta de liberdade, vivendo felizes em zoológicos, no circo, nas corridas, nas lutas e nas competições onde os obrigamos a participar para ganharmos dinheiro. E quando ocasionalmente o animal se rebela atacando o público ou o tratador, dizemos que é a sua natureza ‘selvagem’. Nunca somos nós, sempre são eles, os outros. Tal como no racismo e no sexismo.

A verdade é o que não queremos ver… a verdade. Preferimos esconder a cabeça na areia como a avestruz dando justificações defensivas porque não sabemos ainda como consumir apenas o suficiente para o nosso corpo de uma forma que não seja destruidora do meio ambiente e dos nossos companheiros terráqueos. Acima um documentário que alimenta a mente para quem tiver coragem de encarar a verdade. E talvez mudar.

Em baixo algumas fotos que escolhi por mostrarem como são fabulosos, e parecidos com os humanos, os seres com quem partilhamos este lindo planeta azulzinho.

baby jaguar: curious as any child / curioso como qualquer crianca http://www.greenexpander.com/page/4/

zebra cleaning hippo's teeth / zebra escovando os dentes do hipopotamo http://news.bbc.co.uk/2/hi/europe/8564834.stm

yeah, humans do that too / os humanos fazem a mesma coisa http://msfriendly.wordpress.com/2008/04/

love you? sorry? missed you? / te amo? desculpa? saudades? http://www.newzonfire.com/2009/05/07/20-beautiful-photographs-animals-love/