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Don’t Be Afraid of the Frogs / Não Tenhas Medo dos Sapos

No Tengas Miedo (Don’t Be Afraid). Mural by VinZ Feel Free, 2012, Valencia, Spain

This wall is a tribute to the miner’s women (wifes, daughters, sisters, girlfriends…) who are in Asturias, León and Teruel, fighting for their labor rights while the miners walked 500 km to Madrid during the “Marcha negra” strike.” 

With these words, street artist VinZ Feel Free described the wall he recently painted in the Barrio del Carmen in Valencia. The coal miners’ protest shook the beginning of the summer in Spain. Faced with the austerity measures that have marked European economics in the last couple of years, the miners of the northern province of Asturias, took a walk to the capital, Madrid, to protest against the spanish government. It wasn’t a peaceful walk. Clashes with riot police along the road made news around the world. The miners’ despair at the prospect of loosing their jobs and livelihood made them loose fear, and the well known police brutality in such situations found firm resistance from the protestors and those who along the way started to join them.

VinZ Feel Free paid homage to the miners, using the iconography that has become his trademark in pasted posters all over town: naked bodies with colorful painted bird heads signifying purity and freedom – as opposed to frog heads, which the artist usually puts on cops and business men. Not long afterwards, the cops were gone from the mural. Painted over their guilt, and left the bird heads to defend themselves from an invisible attacker. (see image at the bottom after portuguese translation).

As my own homage to the artist and the cause, and with the intent of perpetuating a defaced work of street art with political comment that I find valuable, I chose VinZ’s free bird head women to illustrate my most recent project on Feminist Art – dasVagabundas, a visual archive of women, art, memory and revolt, with citations and links. From the ape heads of the Guerrilla Girls, to the colorful balaclavas of Pussy Riot, the bird heads of all free women now also stand as one more icon of female resistance.

No Tengas Miedo (Don’t Be Afraid), mural detail, VinZ Feel Free, 2012, Valencia, Spain

Este muro é um tributo ás mulheres dos mineiros (esposas, filhas, irmãs, namoradas…) que estão nas Asturias, León e Teruel, lutando por seus direitos trabalhistas enquanto os mineiros caminhavam 500 km para Madri durante a greve da “Marcha negra.” 

Com estas palavras, o artista de rua VinZ Feel Free descreveu o muro que tinha pintado recentemente no Barrio del Carmen em Valencia. O protesto dos mineiros abalou este principio de verão na Espanha. Perante as medidas de austeridade que marcaram a economia europeia dos últimos anos, os mineiros da província nortenha de Astúrias, marchou para a capital para protestar contra o governo espanhol. Não foi uma passeata pacifica. Confrontos com a policia de choque ao longo do caminho fizeram noticia em todo o mundo. O desespero dos mineiros perante a perspectiva de perderem seus empregos e modo de vida deixou-os sem medo, e a bem conhecida brutalidade policial nestas situações encontrou resistência firme dos manifestantes, bem como daqueles que a eles se foram juntando no caminho.

VinZ Feel Free presta homenagem aos mineiros, usando a iconografia que já é marca sua nos cartazes colados por toda a cidade: corpos nús com coloridas cabeças de pássaros significando pureza e liberdade – em oposição às cabeças de sapo que geralmente põe em policias e homens de negócios. Não passou muito tempo, os policias já não estavam no muro. Pintaram por cima para limpar a culpa, e deixaram as cabeças de pássaro se defendendo de um atacante invisível. (ver imagem em baixo).

Em jeito de homenagem ao artista e à causa, e com a intenção de perpetuar um destruído trabalho de arte de rua com comentário politico que valorizo, escolhi as cabeças de passarinho livre de VinZ para ilustrar o meu projeto mais recente em arte feminista – dasVagabundas, um arquivo visual de mulheres, arte, memória e revolta, com citações e links. Desde as cabeças de gorila das Guerrilla Girls, às coloridas balaclavas das Pussy Riot, as cabeças de pássaro de todas as mulheres livres são agora mais um icon de resistência feminista.

No Tengas Miedo (Don’t Be Afraid). Mural by VinZ Feel Free, 2012, Valencia, Spain. AFTER COP INTERVENTION. APÓS INTERVENÇÃO POLICIAL.


The Walls of Discord / Os Muros da Discórdia

After the apple, the walls and other discords

Last week in São Paulo, street writers bombed an institutionally sponsored art mural writing: 200.000 in make-up and the city in calamity. True. Should they have done it? … And why not?

I don’t say this out of disrespect for the graffiti artists who did the job for the city’s make-up. Urban art has entered the art gallery circuit, state sponsored projects and even the facades of a Paris museum with the backing of the French government, for quite a while now. Still, something of a hot topic, not well seen by out of the gallery circuit artists who stand firmly on the principle that street art and street artists are not for sale.

And why would a wall writer, who has a political and social conscience, often backed by life experience, in a world of rampant political corruption and social inequality, care about respecting state-sponsored art? The art attack in São Paulo called attention to the fact that public money was spent on a colorful facade, which urban artists would otherwise be blocked from touching, while the city’s numerous slums encircling luxury condos highlight the vertiginous gap between the miserable and the super rich. 

Favela Paraisopolis next to Morumbi luxury condo, São Paulo in http://www.urban-age.net/10_cities/08_saoPaulo/_essays/SA_Caldeira.html

The action is valuable for its comment on a situation that is social and political. It adds to the mural composition by counterpointing its fallacy – what is not immediately apparent in its concept and execution – the question of its sponsorship and the use of public funds. In addition, it raises the issue of whose are the walls of our public spaces. Why a certain aesthetics is acceptable and others aren’t. Who makes those decisions and why are some allowed to colour our walls while others are persecuted for it.

What I appreciate in street art is not so much its aesthetics as it is its concept and attitude. Its disregard for authority and the system, its political attitude of defiance and resistance that makes no apology for where and when it decides to write. Not when authorities tell artists they can, but when these decide they must or want to. That is the spirit of the street writer. Expressing an identity in the anonymity of the night, in defiance of authority and the institutions of the system, denouncing unfair policies and keeping alive the spirit of resistance through the arts.

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Depois da maçã, os muros e outras discórdias…

 

200.000 em maquiage e a cidade em calamidade in http://www.flickr.com/photos/choquephotos/4447153920/

Na semana passada em São Paulo, escritores de rua picharam um mural patrocinado pela prefeitura da cidade: 200.000 em maquiagem e a cidade em calamidade. É verdade. Deveriam tê-lo feito? … E porque não?

Não digo isto por desrespeito com os graffiteiros que fizeram o serviço de maquiar a cidade. Já faz tempo que a arte urbana entrou no circuito das galerias, dos projetos financiados pelos estados e até nas fachadas de um museu de Paris com o apoio do governo Francês. Ainda assim, continua assunto quente, algo não muito bem visto por artistas fora do circuito das galerias que se mantêm firmes no principio que arte e artistas de rua não estão à venda.   

Afinal, porque haveria um pixador, com uma consciência política e social, frequentemente baseada em experiência de vida própria, respeitar a arte que o estado financia, num mundo de desenfreada corrupção política e desigualdade social? O ataque artístico em São Paulo chamou a atenção para o fato de que dinheiros públicos eram gastos para colorir uma parede – que artistas urbanos não poderiam sequer tocar em circunstancias diferentes – enquanto as numerosas favelas da cidade rodeiam os condomínios de luxo realçando o fosso vertiginoso entre os miseráveis e os super ricos.

A ação valeu pelo comentário a uma situação que é social e política. Acrescentou à composição do mural, contrapondo a sua falácia, aquilo que não é imediatamente aparente em seu conceito e execução – a questão de seu mecenato e o uso de dinheiros públicos. Além disso, levantou a questão sobre de quem são afinal as paredes dos nossos espaços públicos. Porque é aceitável uma determinada estética e as outras não. Quem toma essas decisões e porque alguns são autorizados a colorir os muros enquanto outros são perseguidos por isso.

O que aprecio em arte urbana não é tanto a sua estética quanto o seu conceito e atitude. Admiro e apoio a sua desconsideração pela autoridade e pelo sistema, a sua atitude política de rebeldia e resistência, que não lamenta escrever nas paredes da cidade onde e quando quer. Não quando as autoridades dizem que o artista pode, mas quando este decide que deve ou quer. Ou não é o espírito do pixador, exprimir uma identidade no anonimato da noite, desafiando as autoridades e as instituições do sistema, denunciando políticas injustas, e mantendo vivo o espírito de resistência pela arte?


Pintando muros / Painting walls

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As pinturas rupestres que ilustram os úteros terrestres, simbolizados pelas grutas e cavernas, foram tradicionalmente interpretados como cenas de caçadas que expressavam o modo de vida de nossos ancestrais.Teorias mais atuais vão mais além, considerando que pinturas rupestres terão sido expressões de vivências espirituais vividas por xamãs. Viagens a mundos interiores exteriorizadas nas paredes da mãe terra, executadas pelos próprios ancestrais que as praticavam.

Os San da Namíbia já ilustravam à 30.000 anos atrás tais experiências. Mitologias desse povo hoje conhecidas no ocidente através de pesquisas antropológicas foram registradas então. Rodeados de animais sagrados – porque representavam o ciclo da vida (alimento) e da morte (caçada) – figuras humanas foram registradas dançando cobertas com os elementos representativos daqueles animais. A arte é assim a prática mais antiga ilustrando culturas, crenças e experiências sociais e desse modo registando a nossa capacidade humana de expressar as vivências fisicas e espirituais que preenchem nossas vidas.

O mesmo continuamos a fazer hoje nos muros de nossas cidades onde artes murais como o grafitti canalizam as experiências, vivências, lutas, raivas e alegrias de artistas e comunidades. E a forma por vezes subversiva com que tal é feito apenas ilustra a repressão que proíbe que enchamos os nossos muros com a nossa história. Uma repressão que procura limitar a nossa capacidade humana de expressão presente à 30.000 anos e que deve por isso continuar a ser subvertida. Vivam os muros pintados!

 

Cave paintings, illustrating earthly wombs, were traditionally interpreted as hunting scenes which expressed our ancestor’s way of life. More contemporary theories go beyond such interpretations and see painted caves as expressions of spiritual experiences lived by shamans. Voyages to interior worlds, exteriorized on mother earth’s walls and executed by the same ancestors who practised them.

The San people from Namibia illustrated such experiences as far back as 30.000 years ago. Mythologies of this people’s culture, known to westerners today through the research work of anthropologists, were then replicated in cave walls. Surrounded by sacred animals – because they represented the cycle of life (food) and death (hunting) – human figures were registered while dancing covered with the accoutrements of those animals. Thus, art is the most ancient practice illustrating cultures, belief systems and social experiences, and registering our human ability for expressing the physical and spiritual livelihoods which fill our lives.

We do the same today in our city walls where mural art, such as graffiti, channel the experiences, livelihoods, struggles, anger and joy of artists and communities. And the subversive way in which that is often done is a consequence of the repression that forbids us to paint our walls with our histories. A repression which attempts to limit our 30.000 year old human ability of expression and which, for that reason, must be subverted. Long live painted walls.